quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

DUPLA VISTA


“Esta faculdade faz parte do conjunto de fenômenos de desprendimento da alma, estudados em capítulo específico em O Livro dos Espíritos, bem como em quase todas as obras da Codificação, além da Revista Espírita.”


A dupla vista, também conhecida como segunda vista, vista espiritual ou ainda vista psíquica, segundo definição de Allan Kardec “é a faculdade graças à qual quem a possui vê, ouve e sente além dos limites dos sentidos humanos”.(O Livro dos Espíritos) Pode ocorrer em diversos graus, desde uma simples capacidade de apreender as coisas em profundidade ou, como se diz vulgarmente, entender pelas entrelinhas, até a possibilidade de ver à distância, através de obstáculos e de corpos opacos, inclusive o interior do próprio corpo físico, ou mesmo enxergar o passado ou o futuro.
Revelando os vários aspectos e detalhes em que a faculdade pode se manifestar, diz Allan Kardec: “Esse dom da segunda vista é que, em estado rudimentar, dá a certas pessoas o tato, a perspicácia, uma espécie de segurança aos atos, o que se pode com
justeza denominar: golpe de vista moral. Mais desenvolvido, ele acorda os pressentimentos, ainda mais desenvolvido, faz ver acontecimentos que já se realizaram, ou que estão prestes a realizar-se; finalmente, quando chega ao apogeu, é o êxtase vígil.”(Obras Póstumas)
Na Revista Espírita de outubro de 1864 complementa o codificador: “Esta faculdade, muito mais comum do que se o crê, se apresenta com graus de intensidade e aspectos muito diversos segundo os indivíduos; nuns, ela se manifesta pela percepção permanente ou acidental, mais ou menos límpida, das coisas distantes; noutros, pela simples intuição dessas mesmas coisas; noutros, enfim, pela transmissão do pensamento.”
Esta faculdade faz parte do conjunto de fenômenos de desprendimento da alma, estudados em capítulo específico em O Livro dos Espíritos, bem como em quase todas as obras da Codificação, além da Revista Espírita. Tendo o perispírito a possibilidade de irradiar-se para além dos limites do corpo físico, pode, dentro destas condições, perceber com maior acuidade e justeza tudo o que ocorre. A Doutrina Espírita, tendo como objetivo estudar os fenômenos da alma, nos fornece, desta maneira, a teoria explicativa da dupla vista. Prossigamos com Kardec:
“Ela tem, pois, seu princípio na propriedade radiante do fluido perispiritual, que permite à alma, em certos casos, perceber as coisas à distância, de outro modo dito, na emancipação da alma, que é uma lei da Natureza. Não são os olhos que vêem, é a alma que, por seus raios, atinge um ponto dado, exerce sua ação fora e sem o concurso dos órgãos corpóreos.”
(Revista Espírita, outubro de 1864) A dupla vista pode acontecer tanto no estado sonambúlico quanto no de vigília, quando o indivíduo vê através da sua vista ordinária e de uma forma tão natural que ele acaba acreditando que todo mundo a possui.

Na Revista Espírita de dezembro de 1858, Allan Kardec cita o caso do Sr. Adrien que, tendo desenvolvido a segunda vista e mesmo sem ser sonâmbulo, podia enxergar a longas distâncias, descrevendo locais, pessoas nos seus afazeres e fatos, tendo sido possível verificar a sua autenticidade.
Pouco estudada atualmente no meio espírita, esta faculdade era bem conhecida dos magnetizadores mesmo antes do surgimento da Doutrina, os quais davam àquela uma utilidade prática nos tratamentos dos seus pacientes.
Em Magnetismo Curativo, de Alphonse Bué, encontramos a seguinte citação referente à dupla vista (sob o nome de clarividência) durante o estado sonambúlico:
“Onde a clarividência me parece dever prestar verdadeiros serviços, é quando, desenvolvendo-se normalmente no decurso dum tratamento, sem ter sido exigida nem solicitada, se manifesta espontaneamente num doente, como crise natural que devia produzir-se.
O doente, nesse estado, julga claramente da natureza do seu mal, da sua origem e da sua causa, dos meios a empregar para combatê-la; vê o interior do seu corpo, os órgãos doentes; prevê, de antemão, a natureza e a época exata das crises pelas quais
deverá passar, e anuncia todas as peripécias da marcha da moléstia, sua duração e modo de acabar.”
Vemos, então, que os magnetizadores conheciam muito bem a dupla vista e a tinham como recurso terapêutico de grande valia tanto no diagnóstico das doenças como no acompanhamento dos tratamentos. Mais adiante, na mesma obra, o autor relata a respeito do tratamento de uma jovem de nome Luíza que há 12 anos sofria com uma atrofia muscular progressiva. Suas pernas estavam completamente paralisadas e os braços a caminho do mesmo destino.

A jovem apresentou-se sonâmbula decorrido um mês de tratamento. Sigamos com Bué: “Luíza, em sono magnético, seguia diariamente este trabalho de reorganização da Natureza, com interesse crescente; como via perfeitamente o interior do corpo, tinha prazer em pôr-me ao corrente das flutuações que o tratamento imprimia ao seu estado; o que lhe chamava principalmente a atenção era o aspecto dos seus músculos. Não possuindo nenhuma noção de anatomia, limitava-se simplesmente a explicar-me a seu modo aquilo que via.
Os músculos assim enferrujados pela inação, se lhe afiguravam, a princípio, como que empastados de substância amarelo-fosco, que parecia ter invadido os interstícios fibrilares; de amarela que era, essa substância tornou-se branca; depois, pareceu fundirse e reabsorver-se; o sangue afluiu, então, mais abundantemente para o músculo, vindo restituir-lhe a vitalidade e mobilidade; mas, ao mesmo tempo, ela previu uma crise próxima e de grandes sofrimentos: “A vida volta, disse-me ela, mas é
acompanhada da inflamação; já se acha invadido o envoltório dos músculos por placas vermelhas, semeadas de milhares de botõezinhos, oh! Como vou sofrer horrivelmente!” E passado um momento de silêncio, acrescentava: “Mas é necessário e depois passarei muito melhor”.”
Fomos encontrar ainda, na Revista Espírita de junho de 1867, o seguinte exemplo dado por Allan Kardec:
“Conhecemos, em Paris, uma senhora na qual ela [a dupla vista] é permanente, e tão natural quanto a visão comum; ela vê sem esforço e sem concentração o caráter, os hábitos, os antecedentes de quem dela se aproxima; descreve as doenças e prescreve tratamentos eficazes, com mais facilidade do que muitos sonâmbulos comuns; basta pensar em uma pessoa ausente para que ela a veja e a designe. Estávamos um dia em sua casa, e vimospassar na rua alguém com quem temos relação e que ela jamais viu. Sem ser nisto provocada por nenhuma pergunta, dela fez o retrato moral mais exato, e nos deu a seu respeito conselhos muito sábios.
Essa senhora, no entanto, não é sonâmbula; ela fala do que vê, como falaria de qualquer outra coisa sem se desviar de suas ocupações. Ela é médium? Ela mesma não sabe nada disso, porque tem pouco tempo, não conhece o Espiritismo, nem mesmo de nome. Essa faculdade, pois, é nela muito natural e tão espontânea quanto possível. Como ela percebe se não for pelo sentido espiritual?
Devemos acrescentar que essa senhora tem fé nos sinais da mão; também a examina quando se a interroga; nela vê, diz ela, o indício das doenças.
Como ela vê certo, e que é evidente que muitas coisas que ela diz não podem ter nenhuma relação fisiológica com a mão, estamos persuadidos de que para ela é simplesmente um meio de se pôr em relação, e desenvolver sua vista fixando-a sobre um ponto determinado; a mão faz o papel de espelho mágico ou psíquico; ela vê como outros vêem num copo, numa garrafa ou noutro objeto.”
Com a explicação acima, podemos entender a que grau pode chegar a segunda vista, bem como o porquê do uso de objetos e acessórios tais como bola de cristal, cartas, cristais, búzios, etc, pelos ledores da sorte. Estas pessoas geralmente têm como suporte ou auxiliar da concentração os objetos  itados, usando todavia a sua capacidade de visão espiritual para enxergar o passado, o futuro ou as doenças e seus tratamentos, mesmo estando consciente, ou seja, em estado de vigília. A leitura
das mãos teria uma vantagem que é o contato físico, o qual facilita a relação entre o clarividente e o consulente.

Como vimos, a dupla vista pode ser muito útil, se bem educada, como apoio nos tratamentos magnéticos, afora as outras capacidades que podem ser reveladas por quem é portador. Infelizmente, aprendemos a esperar em tudo pelos Espíritos desencarnados e relegamos ao esquecimento as potências que vivem em germe no íntimo de nós encarnados. Descobrir e desenvolver as nossas faculdades espirituais faz parte do programa reencarnatório. Se sufocamos estas aptidões antes mesmo delas despontarem e se as desprezamos por um comodismo que nos libera de qualquer esforço, então estamos cometendo um crime contra Deus e as suas leis.


4 comentários:

  1. Gostei muito, obrigada acho que tenho um tiquinho de dupla vista.

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  2. todo ser humano tem a sua mediunidade,basta desenvouve-la.

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  3. Interessante que não é mediunidade, é algo inerente do espirito, como a clarevidência e tantas outras faculdades. Nem tudo é mediunidade, que aliás só é quando há um intercâmbio entre você, um desencarnado e uma terceira pessoa. Bom texto, ☺

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