sábado, 1 de agosto de 2015

ARREPENDIMENTO, EXPIAÇÃO, PROVA, REPARAÇÃO


Terezinha Colle

O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus, e o mal tudo o que desta se afasta. Assim, fazer o bem é conformar-se à lei de Deus;fazer o mal é infringi-la.1

Parece haver, por parte de muitas pessoas, uma certa dificuldade para entender suas relações com as leis divinas. Talvez isso se dê por causa da ideia equivocada que se tem sobre a justiça divina e a maneira como ela se processa. Essa situação de dúvidaé geradora de incredulidade, podendo causar sofrimento e mesmo o afastamento do homem de seu Criador.

Como na escala dos mundos a Terra é um dos mais inferiores, nela habitam homens imperfeitos que, vendo-se fragilizados pelas faltas cometidas, e muitas vezes sem forças para lutar, temem buscar em Deus o auxílio de que necessitam para retomar o caminho do bem, adiando assim sua própria felicidade.

Com as luzes do progresso intelecto-moral a humanidade abandonou a ideia das penas eternas e, por conseguinte, a ideia de inferno como lugar de punição e de um céu para a ociosidade eterna.
No entanto, mesmo tendo abandonado essas ideias equivocadas, o homem ainda se debate para compreender como deve se comportar diante dos reveses da vida e perante as leis de Deus, inscritas em sua própria consciência.

À Ciência espírita estava reservada a tarefa de esclarecer o homem sobre como se processa a justiça divina com vistas ao aperfeiçoamento moral das criaturas. 

Essa Doutrina veio trazer um novo conceito inerente à lei de progresso, de adiantamento moral da humanidade, quando ocorre de o homem infringir as leis divinas e se afastar do caminho do bem. Esse conceito é o de: REPARAÇÃO.

Nosso objetivo é buscar, nos textos de Kardec, uma melhor compreensão das palavras ARREPENDIMENTO, EXPIAÇÃO, PROVA e REPARAÇÃO, para que possamos compreender o que elas significam no contexto da doutrina espírita.

Algumas considerações sobre os termos: arrependimento e penitência.

Comecemos pelo arrependimento, que é o primeiro movimento da alma infratora, rebelde ou, como se diz comumente, pecadora, que deseja reajustar-se às leis divinas. 

A palavra francesa utilizada por Kardec, referindo-se ao arrependimento, foi repentant. E aqui vale uma breve reflexão sobre esse termo, para que possamos compreender melhor a ideia que lhe está associada na ciência da alma.

A palavra repentant é relativa a Repentance, que “é a dor que se experimenta pelos pecados e que leva a uma mudança de atitude chamada conversion [conversão].
Esses dois estados, repentance e conversion, são de tal forma solidários, tão organicamente ligados, que  o Antigo Testamento os exprime frequentemente por uma
mesma palavra, tanto uma leva à outra. O arrependimento do pecado consiste em ‘voltar’, em ‘retornar’ a Deus.

Ocorre que a Igreja católica romana substituiu a noção de repentance [arrependimento] pela de penitence [penitência], que tomou na tradução latina do Novo Testamento (Vulgata).2 A penitência, da qual a Igreja romana fez um sacramento, é mais uma atitude eclesisástica e ritual do que uma transformação moral profunda. Ela corresponde à concepção católica da salvação pelas obras.” 3

Em que isso poderia comprometer o nosso entendimento?
Primeiramente, por que Kardec jamais utilizou as palavras penitence (penitência) e penitent (penitente), e isso porque certamente sabia que essas palavras são carregadas de significados que não correspondem à verdadeira noção de arrependimento proposta pelo Espiritismo. Nas obras de Kardec em língua francesa encontram-se essas palavras, mas somente nos textos em que estavam originalmente inseridas, como é o caso das citações do Novo Testamento.

Acontece que alguns tradutores, ao verterem os textos originais de Kardec para o português, substituíram o termo repentance, que deveria ser traduzido por arrependimento, por penitente, o que compromete seriamente a ideia.

O termo penitência, que deu origem à palavra penitenciária, traz em si um certo peso, uma ideia de punição, de castigo; sugere uma pena imposta por um tribunal, e não uma transformação moral profunda e voluntária, fruto do amadurecimento do senso moral, como é o caso do arrependimento. Embora nos dicionários da língua portuguesa as palavras arrependimento e penitência geralmente apareçam como sinônimas, o significado de penitência que predomina é: “Pena imposta pelo confessor. Um dos sete sacramentos da Igreja. Qualquer sacrifício para expiação de pecados (jejuns, orações etc.). Castigo. Incômodo, tormento.” 4 “Castigo público imposto pelo tribunal da Inquisição.”5

Como não comprometer o entendimento do significado de uma palavra que traz a ideia de transformação moral profunda e voluntária, quando a substituímos por outra que traz a de uma imposição de outro tribunal que não seja o da própria consciência do infrator?

É possível submeter alguém à força, exigir uma abjuração, uma confissão que não venha da intimidade, mas não é isso o que faz a alma dobrar-se sobre si mesma, como é o caso do arrependimento.

Outro inconveniente bem pode ser o de confundirmos o verdadeiro sentido do arrependimento com prática exteriore, ou obras feitas para agradar a Deus com intuito de obter seu perdão, sem corrigirmos nossos pensamentos, sentimentos e atos. Eis o que escreveu Kardec sobre este assunto:

“O arrependimento é o primeiro passo para a melhoria; mas não basta por si só, é preciso ainda a expiação e a reparação. Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.

O arrependimento suaviza as dores da expiação, porque traz a esperança e prepara o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa; o perdão seria então uma graça e não uma anulação.

“O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer tempo; se for tardio, o culpado sofre por mais tempo. 

A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais, que são a consequência da falta cometida, seja desde a vida presente, seja, após a morte, na vida espiritual, seja numa nova existência corporal, até que os últimos traços da falta sejam apagados.” 6

Kardec, sempre coerente em todos os preceitos da Doutrina, referindo-se aos Espíritos que ainda não foram tocados de arrependimento, não os chama de impenitentes, chama-os de endurecidos.

Os maus Espíritos são aqueles que ainda não foram tocados de arrependimento; que se deleitam no mal e nenhum pesar por isso sentem; que são insensíveis às reprimendas, repelem a prece e muitas vezes blasfemam do nome de Deus. São essas almas endurecidas que, após a morte, se vingam nos homens dos sofrimentos que suportam, e perseguem com o seu ódio aqueles a quem odiaram durante a vida, seja pela obsessão, seja exercendo sobre eles qualquer influência funesta

Referindo-se aos Espíritos arrependidos, diz o Mestre:

Seria injusto incluir na categoria dos maus Espíritos os Espíritos sofredores e arrependidos que pedem preces; estes últimos podem ter sido maus, porém, já não o são desde o momento que reconhecem suas faltas e as lamentam; são apenas infelizes; alguns começam mesmo a gozar de uma felicidade relativa.7

Expiações, provas e reparação

Vejamos agora a palavra EXPIAÇÃO, conforme o próprio Kardec a define:
Pena que sofrem os Espíritos em punição de faltas cometidas durante a vida corporal. A expiação, como  sofrimento moral, se dá no estado errante; como sofrimento físico, ela se dá no estado corporal. As vicissitudes e os tormentos da vida corporal são, ao mesmo tempo, provas para o futuro e uma expiação para o passado.8

No entanto, “A expiação, no mundo dos Espíritos e na Terra, não é um duplo castigo para o Espírito; é o mesmo que continua na Terra, como complemento, com vistas a lhe facilitar sua melhora por um trabalho efetivo; depende dele tirar disso proveito. Não lhe é preferível voltar à Terra com a possibilidade de ganhar o céu, a ser condenado a deixa-la sem remissão? Essa liberdade que lhe é concedida é uma prova da sabedoria, da bondade e da justiça de Deus, que quer que o homem tudo deva aos seus esforços e seja o artífice do seu futuro; se é infeliz, e o é por mais ou menos tempo, não pode disso se quiexar senão de si mesmo: a via do progresso lhe está sempre aberta.9

Ainda segundo o Mestre, o que são PROVAS:

Vicissitudes da vida corporal pelas quais os Espíritos se depuram de acordo com a maneira como as sofrem. Segundo a doutrina espírita, o Espírito livre do corpo, reconhecendo sua imperfeição, escolhe ele mesmo, por um ato de seu livre-arbítrio, o gênero de provas que julga o mais próprio ao seu adiantamento, e que sofrerá em uma nova existência. Se escolher uma prova acima de suas forças ele sucumbe, e seu adiantamento é retardado.10

De tudo o que foi dito acima, nota-se claramente que a liberdade do infrator é sempre preservada, inclusive na escolha das provas por que terá de passar. E isso é perfeitamente compreensível no processo de reabilitação moral do Espírito imortal, uma vez que o que prescrevem as leis divinas é o progresso efetivo, a regeneração dotransgressor, e não um sofrimento que nada produza de útil.

E quanto à REPARAÇÃO, como entendê-la no contexto da ciência espírita?
Vejamos o que dizem os Sábios da imortalidade:

“A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal. Aquele que não repara as suas faltas nesta vida, por fraqueza ou má-vontade, se encontrará, numa existência ulterior, em contacto com as mesmas pessoas que dele tiveram queixas, e em condições escolhidas por ele mesmo, de maneira a poder lhes provar seu devotamento, e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. 

Nem todas as faltas trazem prejuízo direto e efetivo; nesses casos, a reparação se realiza fazendo-se o que se deveria fazer e não foi feito, cumprindo os deveres negligenciados ou desprezados, as missões em que se faliu; praticando o bem em contrapartida ao que se fez de mal: isto é, sendo humilde se foi orgulhoso, afável se foi áspero, caridoso se foi egoísta, benevolente se foi malevolente, laborioso se foi preguiçoso, útil se foi inútil, temperante se foi dissoluto, bom exemplo se o foi mal, etc. É assim que o Espírito progride tirando proveito do seu passado.”

“A necessidade da  reparação é um princípio de rigorosa justiça que podemos considerar como a verdadeira lei de reabilitação moral dos Espíritos. É uma doutrina que nenhuma religião havia ainda proclamado.

Entretanto, algumas pessoas a repelem porque acham mais cômodo poder apagar seus malefícios por um simples arrependimento, que não custa mais que palavras e a ajuda de algumas fórmulas; crendo-se assim quites, verão mais tarde se isso lhes basta.
Poderíamos lhes perguntar se esse princípio não é consagrado pela lei humana, e se a justiça de Deus pode ser inferior à dos homens? Se se dariam por satisfeitas com um indivíduo que, tendo-as arruinado por abuso de confiança, se limitasse a dizer que lamenta infinitamente. Por que recuariam diante de uma obrigação que todo homem honesto se impõe cumprir como um dever, na medida de suas forças?

Quando esta perspectiva da reparação for inculcada na crença das massas, ela será um freio bem mais poderoso que o inferno e as penas eternas, porque ela diz respeito à atualidade da vida, e o homem compreenderá a razão de ser das circunstâncias penosas de onde ele se acha colocado.11

A expiação serve sempre de prova, mas nem sempre a prova é uma expiação

Em face de tudo o que foi exposto poderíamos supor que todo sofrimento experimentado nesta vida resulta de uma falta cometida, mas assim não é. Vejamos o que dizem os Espíritos:

“Não há crer, no entanto, que todo sofrimento suportado neste  mundo denote a existência de uma determinada falta. Muitas vezes são simples provas buscadas pelo Espírito para concluir a sua depuração e apressar o seu progresso. Assim, a expiação serve sempre de prova, mas nem sempre a prova é uma expiação. Provas e expiações, todavia, são sempre sinais de relativa inferioridade, porquanto o que é perfeito não precisa ser provado. Pode, pois, um Espírito haver chegado a certo grau de elevação e, nada obstante, desejoso de adiantar-se mais, solicitar uma missão, uma tarefa a executar, pela qual tanto mais recompensado será, se sair vitorioso, quanto mais rude haja sido a luta. Tais são, especialmente, essas pessoas de instintos naturalmente bons, de alma elevada, de nobres sentimentos inatos, que parece nada de mau haverem trazido de suas precedentes existências e que sofrem, com resignação toda cristã, as maiores dores, somente pedindo a Deus que as possam suportar sem murmurar. Pode-se, ao contrário, considerar como expiações as aflições que provocam queixas e impelem o homem à revolta contra Deus.

Sem dúvida, o sofrimento que não provoca queixumes pode ser uma expiação; mas é indício de que foi buscada voluntariamente, antes  que imposta, e constitui prova de forte resolução, o que é sinal de progresso.” 12

Então uma expiação pode ser imposta? E como ficaria a liberdade? Consultemos os Espíritos:

Como pode o Espírito, que, em sua origem, é simples, ignorante e carecido de experiência, escolher uma existência com conhecimento de causa e ser responsável por essa escolha?

“Deus lhe supre a inexperiência, traçando-lhe o caminho que deve seguir, como fazeis com a criancinha. Pouco a pouco, porém, à medida que o seu livre-arbítrio se desenvolve, deixa-o senhor de proceder à escolha, e só então é que muitas vezes lhe acontece extraviar-se, tomando o mau caminho, por desatender os conselhos dos Espíritos bons. A isso é que se pode chamar a queda do homem.”

- Quando o Espírito goza do livre-arbítrio, a escolha da existência corporal dependerá sempre exclusivamente de sua vontade, ou essa existência lhe pode ser imposta, como expiação, pela vontade de Deus?

“Deus  sabe esperar, não apressa a expiação. Todavia, pode impor certa existência a um Espírito, quando este, pela sua inferioridade ou má-vontade, não se mostra apto acompreender o que lhe seria mais benéfico, e quando vê que tal existência servirá para a purificação e o progresso do Espírito, ao mesmo tempo que lhe sirva de expiação.”13

Os Espíritos em expiação vieram de outros mundos: são exóticos na Terra

O Epiritismo vem nos esclarecer, também, sobre a situação do mundo em que vivemos:

“A Terra pode ser considerada ao mesmo tempo um mundo de educação para os Espíritos pouco avançados, e de expiação para os Espíritos culpados. Os males da humanidade são consequência da inferioridade moral da maioria dos Espíritos encarnados.
Pelo contato de seus vícios, eles se tornam reciprocamente infelizes e punem-se uns aos outros. 14

Vejamos o que diz Santo Agostinho sobre esse assunto:

(…)“Nem todos os Espíritos que encarnam na Terra vão para aí em expiação. As raças a que chamais selvagens são formadas de Espíritos que apenas saíram da infância e que na Terra se acham, por assim dizer, em curso de educação, para se desenvolverem pelo contacto com Espíritos mais adiantados. Vêm depois as raças semi-civilizadas, constituídas desses mesmos Espíritos em via de progresso. São elas, de certo modo, raças indígenas da Terra, que aí se elevaram pouco a pouco em longos períodos seculares, algumas das quais hão podido chegar ao aperfeiçoamento intelectual dos povos mais esclarecidos.

“Os Espíritos em expiação, se nos podemos exprimir dessa forma, são exóticos, na Terra; já viveram noutros mundos, donde foram excluídos em consequência da sua obstinação no mal e por se haverem constituído, em tais mundos, causa de perturbação para os bons.15 Tiveram de ser degredados, por algum tempo, para o meio de Espíritos mais atrasados, com a missão de fazer que estes últimos avançassem, pois levam consigo inteligências desenvolvidas e o gérmen dos conhecimentos que adquiriram. Daí vem que os Espíritos em punição se encontram no seio das raças mais inteligentes. Por isso mesmo, para essas raças é que de mais amargor se revestem os infortúnios da vida.
É que há nelas mais sensibilidade, sendo, portanto, mais provadas pelas contrariedades e desgostos do que as raças primitivas,  cujo senso moral se acha mais embotado.”

“A Terra, conseguintemente, oferece um dos tipos de mundos expiatórios, cuja variedade é infinita, mas  revelando todos, como caráter comum, o servirem de lugar de exílio para Espíritos rebeldes à lei de Deus. Esses Espíritos têm aí de lutar, ao mesmo tempo, com a perversidade dos homens e com a inclemência da Natureza, duplo e árduo trabalho que simultaneamente desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência.
É assim que Deus, em sua bondade, faz que o próprio castigo redunde em proveito doprogresso do Espírito.”16

Se assim é, e se não pertencemos às raças chamada selvagens ou indígenas da Terra, somos os Espíritos em expiação, somos exóticos neste mundo, ou seja, vivemos em outros mundo e para cá fomos degredados, como alunos expulsos da escola por causa de sua rebeldia…

Assim fica mais fácil compreender as palavras do Espírito de Verdade, quando diz: 

“Venho, como outrora,  entre os filhos transviados de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como outrora a minha palavra, deve lembrar aos incrédulos que acima deles reina a imutável verdade: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinem as plantas e se levantem as ondas. Revelei a doutrina divinal. Como um ceifeiro, reuni em feixes o bem esparso na Humanidade e disse: “Vinde a mim, todos vós que sofreis.”

Mas os homens ingratos se desviaram do caminho reto e largo que conduz ao reino de meu Pai e enveredaram pelas ásperas sendas da impiedade. Meu Pai não quer aniquilar a raça humana; quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, isto é, mortos segundo a carne, porquanto não existe a morte, vos socorrais mutuamente, e que se faça ouvir não mais a voz dos profetas e dos apóstolos, mas a dos que já não estão mais no corpo, a clamar: Orai e crede! pois a morte é a ressurreição, e a vida a prova escolhida, durante a qual as virtudes que houverdes cultivado crescerão e se desenvolverão como o cedro.

Homens fracos, que  compreendeis as trevas das vossas inteligências, não afasteis o facho que a clemência divina vos coloca nas mãos para vos clarear o caminho e reconduzir-vos, filhos perdidos, ao regaço de vosso Pai. 

Sinto-me por demais  tomado de compaixão pelas vossas misérias, pela vossa fraqueza imensa, para deixar de estender mão socorredora aos infelizes transviados que, vendo o céu, caem nos abismos do erro. Crede, amai, meditai sobre as coisas que vos são reveladas; não mistureis o joio com a boa semente, as utopias com as verdades.

Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo. No Cristianismo encontram-se todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram. Eis que do além-túmulo, que julgáveis o nada,  vozes vos clamam: “Irmãos! nada perece. Jesus-Cristo é o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade.”17

Encerramos com um apelo afetuoso do nosso querido Lamennais:

“Pobres ovelhas desgarradas, sabei ver o bom Pastor que vem de longe e que em vez de querer banir-vos para sempre de sua presença, ele mesmo vem ao vosso encontro para vos reconduzir ao aprisco. Filhos pródigos, deixai o vosso exílio voluntário; dirigi vossos passos para a morada paterna: o pai vos estende os braços e está sempre pronto a festejar o vosso retorno à família.”18

Referência;

1 O livro dos Espíritos, item 630.
2 Tradução feita por São Jerônimo, no século IV.
3 Dictionnaire  Encyclopédique de la Bible A. Westphal – Repentance.
4 Michaelis – Moderno dicionário da língua portuguesa, verbete: penitência.
5 Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, vocábulo: penitência.
6 O Céu e o Inferno, cap. VII - As penas futuras - Código penal da vida futura, 16ª.
7 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVIII - Coletânea de preces espíritas - IV - Preces pelos que já não são da
terra - Pelos Espíritos arrependidos, item 73.
8 Instruções práticas sobre as manifestações espíritas - Vocabulário Espírita – EXPIAÇÃO.
9 O Céu e o Inferno - Primeira Parte – Doutrina, cap. V - O Purgatório, item 6.
10 Instruções práticas sobre as manifestações espíritas - Vocabulário Espírita – PROVAS.
11 O Céu e o Inferno, cap. VII - As penas futuras - Código penal da vida futura, 17ª e comentário de Kardec.
12 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V - Bem-aventurados os aflitos -Causas anteriores das aflições, item 9.
13 O Livro dos Espíritos, item 262

14 O que é o Espiritismo? Cap. III, item 132.
15 Veja-se: Doutrina dos Anjos decaídos e da perda do Paraíso, em A Gênese, cap. XI - Gênese espiritual, itens 43 a 49.
16 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. III - Há muitas moradas na casa de meu Pai - Instruções dos Espíritos -
Mundos de expiação e de provas, itens 14 e 15.
17 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI - O Cristo consolador - Instruções dos Espíritos - Advento do Espírito de Verdade, item 5.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

JESUS E O AMOR AO PRÓXIMO


Terezinha Colle

O amor é a lei de atração para os seres vivos e organizados. A atração é a lei de amor para a matéria inorgânica.1

Vicente de Paulo

 O amor talvez seja um dos temas mais explorados de todos os tempos e também um dos mais empolgantes. Os gregos Antigos tinham várias palavras para designar esse sentimento, em suas diversas manifestações.

A recomendação para que a humanidade ame é muito antiga e sempre atual. No Antigo Testamento vamos encontra-la, na seguinte passagem: “Amarás Yahvé, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças.2

Encontramos, também na Bíblia, a recomendação de amor ao próximo, em  Levítico, 19,18: “Não te vingarás e não guardarás rancor pelos filhos de teu povo, mas amarás teu próximo como a ti mesmo.”

Muitos séculos depois um fariseu, doutor da lei, faz a Jesus a seguinte pergunta: “Mestre, qual o mandamento maior da lei?” Jesus respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua  alma e de todo o teu espírito; este o maior e o primeiro mandamento. E aqui tendes o segundo, semelhante a esse: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. – Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.”3

Como dissemos no início, havia vários termos gregos para designar tipos de amores diferentes.

Um deles é o amor eros, que muito resumidamente poderíamos dizer que é o amor paixão, o amor de posse, o amor egoísta. É o amor que devora para suprir uma falta, uma necessidade, o amor carnal.

Depois tem o amor philia, que já é um amor pelo outro, pelo que o outro é. Poderíamos dizer que é uma passagem do amor puramente carnal ao amor espiritual, do amor por si mesmo ao amor pelo outro. É o amor entre marido e mulher, entre pais e filhos, entre amigos. Mas ainda pode ser um amor condicionado, um amor que também espera amor em troca.

Jesus, ao prescrever o amor, utilizou o termo agapè, que vem do verbo grego agapan, que significa “querer bem”, para designar o amor mais autêntico, o amor incondicional.

É esse mesmo termo que Jesus utiliza, de acordo com João, ao dizer: “Nisto, todos vos reconhecerão como meus discípulos: por esse amor que tereis uns pelos outros.”4 O termo agapè, de que Jesus se utilizou é o que se costuma traduzir como caridade.

Com o passar do tempo, as más traduções e as falsas interpretações, como saber o real sentido da palavra caridade proferida por Jesus?

No século XIX, quando elaborava a ciência espírita, o sábio Allan Kardec fez a seguinte pergunta aos Espíritos: qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus? Obteve a seguinte resposta: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.”

E Kardec acrescenta: “O amor e a caridade são o complemento da lei de justiça, pois amar o próximo é fazer-lhe todo o bem que nos seja possível e que desejaríamos nos fosse feito. Tal o sentido destas palavras de Jesus: Amai-vos uns aos outros como irmãos.5

Vicente de Paulo, um dos Espíritos que colaborou com a ciência espírita diz: “Amai-vos uns aos outros, eis toda a lei, lei divina mediante a qual governa Deus os mundos.”6

Ao observar uma mãe animal amamentando seu filhote, arriscando ou sacrificando a própria vida para defendê-lo, quem diz que aí não se encontra o germe do amor em forma de instinto?

Talvez seja esse o sentido das palavras de Lázaro, quando disse: “O amor resume a doutrina de Jesus toda inteira, visto que esse é o sentimento por excelência, e os sentimentos são os instintos elevados à altura do progresso feito.7

O Cristo foi e continua sendo o maior exemplo de amor incondicional que a humanidade pode conhecer. Espírito puro, de nada precisava deste planeta imperfeito, nem mesmo da gratidão daqueles a quem ajudava; ele fez o bem pelo bem, e amou simplesmente porque o amor é a sua natureza.

“Jesus ia por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do reino e curando todos os langores e todas as enfermidades no meio do povo. - Tendo-se a sua reputação espalhado por toda a Síria, traziam-lhe os que estavam doentes e afligidos por dores e males diversos, os possessos, os lunáticos, os paralíticos e ele a todos curava. - Acompanhava-o grande multidão de povo da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia e de além Jordão. (S. Mateus, 4:23 a 25.)

De todos os fatos que dão testemunho do poder de Jesus, os mais numerosos são, não há contestar, as curas. Queria ele provar dessa forma que o verdadeiro poder é o daquele que faz o bem; que o seu objetivo era ser útil e não satisfazer à curiosidade dos indiferentes, por meio de coisas extraordinárias.

Aliviando os sofrimentos, prendia a si as criaturas pelo coração e fazia prosélitos mais numerosos e sinceros, do que se apenas os maravilhasse com espetáculos para os olhos. Daquele modo, fazia-se amado, ao passo que se se limitasse a produzir surpreendentes fatos materiais, conforme os fariseus reclamavam, a maioria das pessoas não teria visto nele senão um feiticeiro, ou um mágico hábil, que os desocupados iriam apreciar para se distraírem.

Assim, quando João Batista manda, por seus discípulos, perguntar-lhe se ele era o Cristo, a sua resposta não foi: “Eu o sou”, como qualquer impostor houvera podido dizer. Tampouco lhes fala de prodígios, nem de coisas maravilhosas; responde-lhes simplesmente: “Ide dizer a João: os cegos veem, os doentes são curados, os surdos ouvem, o Evangelho é anunciado aos pobres.” O mesmo era que dizer: “Reconhecei-me pelas minhas obras; julgai da árvore pelo fruto”, porquanto era esse o verdadeiro caráter da sua missão divina.8

Encerremos com as palavras de Sócrates, o nobre filósofo grego, ao referir-se ao amor:

Chamo homem vicioso a esse amante vulgar, que mais ama o corpo do que aalma. O amor está por toda parte em a Natureza, que nos convida ao exercício da nossa inteligência; até no movimento dos astros o encontramos. É o amor que orna a Natureza de seus ricos tapetes; ele se enfeita e fixa morada onde se lhe deparem flores e perfumes. É ainda o amor que dá paz aos homens, calma ao mar, silêncio aos ventos e sono à dor.


1 O Livro dos Espíritos, item 888.
2 Deuteronômio, 6,5.
3 S. Mateus, 22: 34 a 40.
4 João, 13,35.
5 O Livro dos Espíritos, item 886.
6 O Livro dos Espíritos, item 888
7 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XI - Amar o próximo como a si mesmo, Instrução dos Espíritos - A lei de amor, item 8.

8 A Gênese » Os milagres segundo o Espiritismo, cap. XV - Os milagres do Evangelho, Curas, Numerosas curas operadas por Jesus, itens 26 e 27.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

INFLUÊNCIA OCULTA DOS ESPÍRITOS SOBRE OS NOSSOS PENSAMENTOS E AS NOSSAS AÇÕES.


Estudo com base in O Livro dos Espíritos, Intervenção dos Espíritos no Mundo Corpóreo,
Capítulo IX, itens de 456 à 472. Obra codificada por Allan Kardec

Pesquisa: Elio Mollo

Livres da matéria, os Espíritos usam o pensamento para se comunicarem entre si e com os encarnados. Para eles o pensamento é tudo. (1). Quando o pensamento está em algum lugar, a alma está também, uma vez que é a alma que pensa. O pensamento é um atributo da alma. (2)

Os Espíritos podem, muitas vezes, conhecer os nossos pensamentos mais secretos, principalmente, aquilo que desejaríamos ocultar a nós mesmos; nem atos, nem pensamentos podem ser dissimulados para eles.  Assim sendo, pareceria mais fácil ocultar-se uma coisa a uma pessoa viva, pois não o podemos fazer a essa mesma pessoa depois de morta, pois quando nos julgamos bem escondidos, temos muitas vezes ao nosso lado uma multidão de Espíritos que nos veem. 

A ideia que fazem de nós, os Espíritos que estão ao nosso redor e nos observam, depende da capacidade evolutiva do observador, assim, os Espíritos levianos riem das pequenas traquinices que nos fazem, e zombam das nossas impaciências. Os Espíritos sérios lamentam as nossas trapalhadas e tratam de nos ajudar. 

Os Espíritos influem sobre os nossos pensamentos e as nossas ações, e nesse sentido, a influência deles é maior do que podemos supor, porque muito frequentemente são eles que nos dirigem.

Temos pensamentos próprios e outros que nos são sugeridos, ou seja, a nossa alma é um Espírito que pensa e não podemos ignorar que muitos pensamentos nos ocorrem, a um só  tempo, sobre o mesmo assunto e frequentemente bastante contraditórios. Pois bem: nesse conjunto há sempre os nossos e os dos Espíritos, e é isso o que nos deixa na incerteza, porque temos em nós duas ideias que se combatem. Para distinguir os nossos próprios pensamentos dos que nos são sugeridos, temos que, quando um pensamento nos é sugerido, é como uma voz que nos fala. Os pensamentos próprios são, em geral, os que nos ocorrem no primeiro impulso. De resto, não há grande interesse para nós nessa distinção, e é frequentemente útil não o sabermos, assim, o homem pode agir mais livremente e, se decidir pelo bem, o fará de melhor vontade, e se tomar o mau caminho a sua responsabilidade será maior.

Os homens de inteligência e de gênio, algumas vezes, as ideias surgem de seu próprio Espírito, mas frequentemente lhes são sugeridas por outros Espíritos, que os julgam capazes de as  compreender e dignos de as transmitir. Quando eles não as encontram  em si mesmos, apelam para a inspiração; é uma evocação que fazem, sem o suspeitar.

Se fosse útil que pudéssemos distinguir claramente os nossos próprios pensamentos daqueles que nos são sugeridos, Deus nos teria dado o meio de fazê-lo, como nos deu o de distinguir o dia e a noite. Quando uma coisa permanece vaga é que assim deve ser para o nosso bem.

O primeiro impulso pode ser bom ou mau, segundo a natureza do Espírito encarnado. É sempre bom para aquele que ouve as boas inspirações.

Para distinguir se um pensamento sugerido vem de um bom ou de um mau Espírito, devemos aprender que os bons Espíritos não aconselham senão o bem, assim, cabe a nós distinguir e escolher.

Os Espíritos imperfeitos nos induzem ao mal com a intenção de nos fazer sofrer como eles, ou seja, eles o fazem por inveja dos seres mais felizes e porque ainda se sentem pertencer a uma ordem inferior e estarem com a consciência pesada a lhe cobrarem a reparação dos seus erros.

Também podemos dizer que os espíritos imperfeitos são os instrumentos destinados a experimentar a fé e a constância dos homens no bem. Nós, como Espíritos, devemos progredir na ciência do infinito, e é por isso que passamos pelas provas do mal até chegarmos ao bem.

A missão dos bons Espíritos é a de nos porem no bom caminho, e quando más influências agem sobre nós, somos nós mesmos que as chamamos, pelo desejo do mal, porque os Espíritos inferiores, também, vêm em nosso auxílio para nos fazer praticar o mal quando temos a vontade de o cometer. (3) Assim, se somos inclinado ao assassínio, teremos uma nuvem de Espíritos ainda voltados ao mal fortalecendo esse pensamento em nós, contudo, quando temos a vontade de fazer o bem, também, teremos junto a nós, Espíritos bons que tratarão de nos influenciar para o bem, isso faz com que se reequilibre a balança, assim, Deus deixa à nossa consciência a escolha da rota que devemos seguir, e a liberdade de ceder a uma ou a outra das influências contrárias que se exercem sobre nós.

O homem pode se afastar da influência dos Espíritos que o incitam ao mal, porque eles só se ligam aos que os solicitam por seus desejos ou os atraem por seus pensamentos.

Os Espíritos cuja influência é repelida pela vontade (4) do homem renunciam às suas tentativas, ou seja, quando nada têm para fazerem, abandonam o campo. Não obstante, espreitam o momento favorável, como o gato espreita o rato.

O melhor meio para neutralizar a influência dos maus Espíritos e fazendo o bem e colocando toda a nossa confiança em Deus, assim, repelimos a influência dos Espíritos inferiores e destruímos o império que desejam ter sobre nós. Devemos evitar de dar ouvidos as sugestões dos Espíritos que suscitam em nós os maus pensamentos, que insuflam a discórdia e excitam em nós todas as más paixões. Desconfiemos  sobretudo daqueles que exaltam o nosso orgulho, porque eles aproveitam das nossas fraquezas. Eis porque Jesus nos ensinou através da oração dominical: "Senhor, não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal!"

Nenhum Espírito recebe a missão de fazer o mal; quando ele o faz, é pela sua própria vontade e consequentemente terá de sofrer as consequências (5). Deus pode deixá-lo fazer para nos provar, mas jamais o ordena, assim, cabe a nós afastar essa espécie de Espirito. 

Quando experimentamos um sentimento de angústia, de ansiedade indefinível, ou de satisfação interior sem causa conhecida, isso pode ser consequência de um efeito das comunicações que, sem o saber, tivemos com os Espíritos, ou das relações que tivemos com eles durante o sono. 

Os Espíritos que desejam incitar-nos ao mal aproveitam a circunstância, mas frequentemente a provocam, empurrando-nos sem o percebermos para o objeto da nossa ambição. Assim, por exemplo, um homem encontra no seu caminho uma certa quantia: não acreditemos pois que foram os Espíritos que puseram o dinheiro ali, mas eles podem dar ao homem o pensamento de se dirigir naquela direção, e então lhe sugerem apoderar-se dele, enquanto outros lhe sugerem devolver o dinheiro ao dono. Acontece o mesmo em todas as outras tentações.

NOTAS:
(1) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, item 100, Escala Espírita.
(2) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, item 89a, Forma e Ubiquidade dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, primeira parte, cap. II, item 7..
(3) Ver Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, segunda parte, cap. VI, item 100, questão 11.
 (4) A vontade não é uma entidade, uma substância e nem mesmo uma propriedade da matéria mais eterizada: é o atributo essencial do Espírito, ou seja, do ser pensante. (Ver Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, segunda parte, cap. VIII, Laboratório do Mundo Invisível, item 131.)

(5) Diz o texto francês: "et par conséquent il en subit les conséquences". Em geral, nas traduções, procura- se corrigir a repetição. Preferimos respeitá-la, mesmo porque nos parece destinada a dar ênfase ao fato. (Nota. de J. Herculano Pires)

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A CIÊNCIA DO MAGNETISMO


Adilson Mota
adilsonmota1@gmail.com

Todos sabem que o Magnetismo era conhecido como ciência entre os magnetizadores clássicos. A intenção desse artigo, porém, é analisar o quanto ainda  falta para fazermos dele, na atualidade, uma verdadeira ciência. Durante cerca de cento e cinquenta anos após o seu surgimento, o Magnetismo conseguiu produzir provas e evidências dos seus efeitos. As doenças eram curadas e os resultados eram visíveis, o que esclarecia os estudiosos dedicados e confundia os orgulhosos que, não querendo observar o que não acreditavam, tinham como fraude ou ilusão tudo que destoava da sua maneira de entender as coisas.

O verdadeiro pesquisador não procura confirmar os seus pontos de vista, ele busca a verdade, mesmo que tenha que admitir que estava em erro. O orgulhoso, por sua vez, anseia em encontrar confirmações das suas ideias, distorcendo a verdade muitas vezes. Falta-lhe humildade como sobra o desprezo pelos que não pensam como ele.

Depois de um hiato em que o Magnetismo praticamente desapareceu, agora ele retorna aliado ao Espiritismo, num crescimento lento, mas vigoroso, envolvendo as mentes e também os corações das pessoas sensíveis que vislumbraram naquele um grande potencial para a cura das diversas doenças físicas, psíquicas ou espirituais. Esse movimento ainda é tímido, insipiente, quase completamente restrito aos atendimentos das Casas Espíritas. Talvez por que seus adeptos não estejam convencidos da grandeza do recurso que têm nas mãos e do quanto esta ciência pode fazer pela Humanidade. A visão parece enxergar apenas o agora, sem vislumbrar as possibilidades vindouras que se abrirão desde que compreendamos o seu objetivo verdadeiro. Sem esta macrovisão estaremos fadados a manter o Magnetismo no rol das crenças particulares sem que ele nunca consiga influir verdadeiramente nos rumos da Humanidade, o que é o seu destino.
Barão Jules Denis du Potet de Sennevoy.
(1796-1881)
Fundador do Journal de Magnétisme e dirigente da
 Socieade Mesmeriana.
icionar legenda

Em carta enviada a Napoleão III, Imperador da França, o Barão du Potet ressalta a importância do Magnetismo.

Uma descoberta brilhante como o sol, fecunda como a natureza se expande hoje pelo mundo inteiro, sem o concurso dos sábios e apesar da poderosa liga que organizaram contra ela. Trata-se do magnetismo, força medicamentosa a qual nada se compara. Como agente de fenômenos, supera e mui-to a eletricidade e o galvanismo, como princípio de ciência moral, nossos conhecimentos atuais nada tem a lhe opor. Que espera então, Sua Majestade, para fazer prevalecer a verdade sobre a mentira? A sanção dos sábios? Nunca a terá plenamente, pois os fatos novos desarranjam seus cálculos e contrariam a fé que tem nas afirmações solenemente procla-madas por eles mesmos. Eles o enganaram sobre o valor real do magnetismo assim como enganaram seu tio, de gloriosa memória, a respeito do vapor.1

Mais adiante solicita o empenho do imperador para a criação de uma “cátedra de ensinamento do Magnetismo”. Seria uma forma dessa  ciência ser melhor estudada e compreendida, estar mais protegida dos ataques dos inimigos, servir à verdade, triunfar sobre a má vontade dos homens e ser preservada para o futuro.

O Magnetismo no período clássico tinha os seus dignos estudiosos, sinceros amantes da verdade, que buscavam o seu desenvolvimento com inteligência e amor. Utilizavam métodos científicos que não deixassem dúvidas quanto aos resultados que ele podia produzir e almejavam a disseminação dessa arte que tantos benefícios trazia, e continua trazendo.

Apesar de alguns esforços ardentes e sinceros, o Magnetismo permanece ainda isolado em pequenos círculos sem, contudo, conseguir ir além dos limites do Centro Espírita. Carece que compreendamos qual a sua missão na Terra. É um bem da Humanidade que desconhece limites de crença, raça, cor, sexo, idade. É a chama da vida que impregna todo ser vivo e que mantém a vida no nosso planeta. Achá-lo patrimônio do Espiritismo é acreditar que somente nós espíritas temos o direito e as condições de utilizar, quando qualquer pessoa possui essa energia e, em tese, tem condições de aplicá-la em benefício de outrem.
   
Sir William Crookes (1832-1919).
Cientista, químico e estudioso 
do psiquismo,
nascido em Londres, Inglaterra.
Foto do Espírito Katie King (materializado) de
braços com William Crookes.
 
                                                                                                                                                         

Numerosos cientistas de renome, mesmo diante dos fatos mais convincentes, hesitaram em proclamar a verdade, com receio das consequências que isso poderia acarretar aos olhos do povo. Crookes, porém, não agiu assim. Ele penetrou o campo das investigações com o intuito de desmascarar, de encontrar fraudes, entretanto, quando constatou que os casos eram verídicos, insofismáveis, ele rendeu-se à evidência, curvou-se diante da verdade, tornou-se espírita convicto e afirmou: - "Não digo que isto é possível; digo: isto é real!“

(http://www.feparana.com.br/biografia.php?cod_biog=278)

 É razoável que hoje o Espiritismo detenha o melhor conhecimento a respeito do magnetismo, mas daí há uma diferença em achar que é o seu proprietário.

Pensando no Magnetismo num sentido universal, podemos entender a nossa responsabilidade no sentido de fazê-lo extrapolar para além das instituições espíritas e fincar bandeira como terapia curativa eficaz. Para isso há um longo caminho a ser percorrido, das experimentações, das exaustivas pesquisas, das frias análises, buscando firmar o Magnetismo em bases sólidas, confiáveis e verificáveis por todos que desejem estudá-lo de maneira séria.

Citei a frieza das análises não me referindo à ausência de paixão e amor pelo que se faz, já que esses são elementos imprescindíveis que geram motivação e que ajudam a superar os desafios que se interpõem no caminho de quem segue algo de bom. Aludi à necessidade de frear a empolgação que nos faz ver a verdade em tudo, até mesmo na mentira, que ilude os olhos e o espírito e desencaminha o pesquisador. É preciso firmar os pés no chão enquanto a emoção nos leva a voar mais alto.

Sir William Crookes, um grande pesquisador dos fenômenos psíquicos e um dos maiores cientistas da sua época é um excelente exemplo. Foi-lhe sugerida uma investigação dos fenômenos espíritas a fim de desvendar de uma vez por todas o que havia por trás daquilo que os espiritistas afirmavam ser a alma dos mortos. Con-ta do livro “Katie King” de Wallace Leal V. Rodrigues a afirmação de Crookes com as características do verdadeiro sábio:

Não posso dizer que tenho pontos de vista ou opiniões sobre um assunto que não tenho a pretensão de entender. Mais tarde voltou a declarar:
Prefiro entrar na questão sem nenhuma noção preconcebida, quanto ao que pode ou ao que não pode ser, mas com todos os meus sentidos alertados e prontos para transmitir informações racionais, acreditando que não temos de modo algum esgotado todo o conhecimento humano ou galgado todos os degraus do conhecimento humano e das forças físicas.

Dir-se-ia que o tiro saiu pela culatra quanto ao que os seus colegas cientistas esperavam como resultado da pesquisa. Agora o renomado físico possuía não uma opinião, mas uma certeza sobre os fenômenos e esta era completamente favorável à tese espírita, pois que se baseava em fatos.

Uma cura magnética pode não deixar dúvidas quanto à sua realidade, no magnetizador e naquele que está em tratamento, mas não servirá de elemento comprobatório, se levarmos em conta os moldes atuais das pesquisas científicas. Exige-se um rigor muito grande para que os resultados alcançados não possam ser explicados em termos de coincidência, acaso ou mesmo como consequência de outros fatores causais.
Miss Florence Cook.
Médium que aos 15 anos de idade submeteu-se às
experiências psíquicas com William Crookes.

Uma pesquisa científica envolvendo tratamento por magnetismo teria que excluir qualquer possibilidade de influência de outras formas de tratamento, como medicamentos, sejam naturais ou químicos, terapia psicológica, etc. O paciente teria que ser tratado única e exclusivamente pela energia do magnetizador. Reconhecemos que haveria grandes dificuldades nesse sentido, porém somente assim teríamos certeza do que proporcionou a saúde ao doente.

Não para por aí, entretanto. A quantidade também é importante. Os resultados positivos alcançados com alguns poucos indivíduos é levado à conta de coincidência. É preciso uma quantidade razoável de participantes a fim de que a estatística seja favorável. Além disso, seria interessante comparar os resultados do magnetismo com os de outras formas de tratamento ou mesmo com grupos-controle (grupos sem tratamento algum) ou fazendo uso de placebo.2

O método científico requer precisão e não dá espaço para improvisações ou conclusões precipitadas. Mesmo assim, muitos não se convencerão e procurarão falhas na pesquisa, levados por um orgulho que não se dobra nem mesmo ante as evidências, assim como aconteceu às cautelosas conclusões de William Crookes. Haverá aqueles, todavia, que, seguidores da verdade, a enxer-garão, lamentando não terem estado antes diante dela.As dificuldades podem ser muitas, o caminho longo e pedregoso, mas não devemos desistir. Da mesma forma que nos preparamos para uma viagem, o objetivo do Magnetismo será alcançado se nos prepararmos para ele. As provisões são os conhecimentos, os estudos, aliados ao espírito crítico, à perseverança, à fé e à humildade, mantendo como sustentáculo a caridade que estabelece como regra o bem coletivo acima do individual.

Referências;

1 Publicada no Jornal do Magnetismo, pág. 30 a 32, de 1860.
2 Placebo – Preparado sem nenhuma ação ou efeito, usado em estudos para determinar a eficácia de substâncias medicinais. (Dicionário Michaelis)


JORNAL VÓRTICE ANO VII, n.º 10 - março - 2015

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