quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O LIVRE-ARBÍTRIO1

  O que é o livre-arbítrio? A história do pensamento registra grandes e profundas reflexões a este respeito, o qual, em essência, significaria a capacidade que temos de fazer livremente as nossas escolhas, escolhendo fazer ou não fazer aquilo que queremos.

Mas será que somos realmente livres? Será mesmo que temos livre-arbítrio para escolher aquilo que queremos? Somos impelidos a responder pela afirmativa, pois nossas experiências diárias normalmente nos dão provas de que, sempre que nada exterior o impeça, eu faço aquilo que quero. Porém a questão de fundo é outra, bem mais complexa, profunda e intrigante: será que eu sou livre para querer aquilo que eu quero?

Duas correntes se formaram ao longo da história da filosofia para responder a esta questão. Conheçamos um pouco cada uma delas2.

A primeira corrente, que remonta às tradições filosóficas representadas modernamente por Descartes e Kant, entende que o livre-arbítrio do ser humano seria completamente arbitrário. O ser humano, portanto, seria capaz de sempre fazer qualquer escolha possível diante de qualquer situação. É dizer: entre dez escolhas possíveis a chance de escolher qualquer uma delas vai ser sempre igual, ou seja, de dez por cento.

Essa primeira tradição filosófica é a que foi adotada por praticamente todas as vertentes filosóficas espiritualistas, pois é com ela que se torna possível isentar Deus do mal que existe no mundo. O homem seria criado totalmente livre para escolher e fazer seu caminho, não sendo, portanto, culpa do Criador se a capacidade de escolha do homem, sempre absoluta, é usada para o mal. Caberia ao homem apenas sofrer as consequências de suas escolhas, para o bem ou para o mal, nesta ou noutra vida.

Já a segunda corrente, que é muito bem representada pelo pensamento de Spinoza e de diversos filósofos materialistas, defende que o livre-arbítrio, se é que existe, não é absoluto, pois o homem seria condicionado a fazer suas escolhas a partir daquilo que ele é. Se alguém escolhe ser mau, é porque ele é mau, porque a natureza o condicionou a tanto, desde que ele surgiu no mundo, para que ele assim o fosse. Portanto, o livre-arbítrio, entendido enquanto faculdade de sempre escolher o que se quer, seria uma espécie de ilusão, posto que, em verdade, não seríamos livres para querer aquilo que queremos.
Spinoza chega mesmo a propor uma imagem interessante, ao comparar aexistência do livre-arbítrio à “convicção” de uma pedra que pensa escolher ocaminho que percorre enquanto cruza o ar até o local onde vai cair.

Essa segunda tradição filosófica é a que encontramos em praticamente todas as filosofias materialistas, que entendem que o homem nada mais é do que um agregado de átomos, células e experiências de vida, que são o que verdadeiramente definem aquilo que ele é e, portanto, aquilo que ele quer. Seu livre-arbítrio seria sempre condicionado. Suas escolhas não poderiam ser diferentes daquelas que ele faz. Fica fácil perceber, portanto, a razão de praticamente nenhuma filosofia de tradição ou vertente espiritualista ter se filiado a esta segunda corrente, pois Deus passaria a ser culpado pelo mal que há no mundo. Afinal, se alguém pratica o mal e se esse alguém o pratica porque é mal (foi criado mal), então a culpa do mal praticado é daquele que o criou: Deus.

Então o Espiritismo, assim como as outras correntes filosóficas de tradição espiritualista, também partilharia da ideia de que somos absolutamente livres? É o que poderíamos concluir de uma leitura isolada da questão 121 de O Livro dos Espíritos:

121. Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal?

“Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não criou Espíritos maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanta para o mal. Os que são maus, assim se tornaram por vontade própria.”

Contudo, não é isto que pensamos, se fizermos uma leitura atenta da obra de Kardec. Isto porque, segundo a doutrina espírita, nossa capacidade de escolha é sempre limitada, limites estes que são impostos justamente por aquilo que somos e pelo que já conseguimos nos tornar. Vejamos algumas passagens das obras kardequianas em que fica claro o modo como os Espíritos ensinam o livre-arbítrio:

262. Como pode o Espírito, que, em sua origem, é simples, ignorante e carecido de experiência, escolher uma existência com conhecimento de causa e ser responsável por essa escolha?

“Deus lhe supre a inexperiência, traçando-lhe o caminho que deve seguir, como fazeis com a criancinha. Pouco a pouco, porém, à medida que o seu livre-arbítrio se desenvolve, deixa-o senhor de proceder à escolha, e só então é que muitas vezes lhe acontece extraviar-se, tomando o mau caminho, por desatender os conselhos dos Espíritos bons. A isso é que se pode chamar a queda do homem.”3

Vê-se, portanto, que o nosso espírito é o resultado de um processo de construção do próprio espírito, feito ao longo de várias encarnações. Neste processo, somos inúmeras vezes mergulhados dentro dos limites do corpo físico (reencarnações), inclusive sofrendo as influências que o organismo imprime à alma. É o que precisamos relembrar pela leitura de algumas questões de O Livro dos Espíritos:

370. Da influência dos órgãos se pode inferir a existência de uma relação entre o desenvolvimento dos órgãos cerebrais e o das faculdades morais e intelectuais?

“Não confundais o efeito com a causa. O Espírito dispõe sempre das faculdades que lhe são próprias. Ora, não são os órgãos que dão as faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos.”

a) – Dever-se-á deduzir daí que a diversidade das aptidões entre os homens deriva unicamente do estado do Espírito?

“O termo unicamente não exprime com toda a exatidão o que ocorre. O princípio dessa diversidade reside nas qualidades do Espírito, que pode ser mais ou menos adiantado. Cumpre, porém, se leve em conta a influência da matéria, que mais ou menos lhe cerceia o exercício de suas faculdades.”

Encarnado, traz o Espírito certas predisposições e, se se admitir que a cada uma corresponda no cérebro um órgão, o desenvolvimento desses órgãos será efeito e não causa. Se nos órgãos estivesse o princípio das faculdades, o homem seria máquina sem livre-arbítrio e sem a responsabilidade de seus atos. Forçoso então seria admitir-se que os maiores gênios, cientistas, poetas, artistas, só o são porque o acaso lhes deu órgãos especiais, donde se seguiria que, sem esses órgãos, não teriam sido gênios e que, assim, o maior dos imbecis teria podido ser um Newton, um Vergílio, ou um Rafael, desde que de certos órgãos se achassem providos. Ainda mais absurda se mostra semelhante hipótese, se a aplicarmos às qualidades morais.
Efetivamente, segundo esse sistema, um Vicente de Paulo, se a Natureza o dotara de tal ou tal órgão, teria podido ser um celerado e o maior dos celerados não precisaria senão de um certo órgão para ser um Vicente de Paulo. Admita-se, ao contrário, que os órgãos especiais, dado existam, são consequentes, que se desenvolvem por efeito do exercício da faculdade, como os músculos por efeito do movimento, e a nenhuma conclusão irracional se chegará. Sirvamo-nos de uma comparação trivial, não obstante verdadeira. Por alguns sinais fisionômicos se reconhece que um homem tem o vício da embriaguez.
Serão esses sinais que fazem dele um ébrio, ou será a ebriedade que nele imprime aqueles sinais? Pode dizer-se que os órgãos recebem o cunho das faculdades.4

Vê-se assim que o espiritismo talvez seja a única filosofia espiritualista que defende o livre-arbítrio como uma faculdade que nunca é absoluta, pois nossas escolhas estão condicionadas àquilo que somos. Sim, somos livres para escolher o que queremos, mas nem sempre para querer o que queremos.
Nosso espírito, portanto, escolhe a partir daquilo que ele é. Se somos egoístas, invejosos, ciumentos, orgulhosos, enfim, viciosos e imperfeitos, então nossas decisões tenderão a obedecer os impulsos dados por essas características. Se somos generosos, humildes, caridosos, enfim, virtuosos e bons, então nossas decisões tenderão ao bem. Um espírito imperfeito não é capaz de fazer as mesmas escolhas de um espírito puro, pois aquele ainda precisa passar pelo processo de depuração que o faça galgar os degraus evolutivos da escala espírita5. Tais reflexões mostram como a doutrina espírita talvez acabe por se localizar filosoficamente muito mais próxima das correntes materialistas e spinozistas do que das espiritualistas tradicionais.

Façamos o teste e imaginemos, com alguns exemplos, se somos mesmo tão facilmente livres para escolher diante das seguintes situações: não ficar com raiva quando somos xingados ou agredidos; não sentir medo diante de uma situação que nos assusta; não sentir ciúme diante de alguém que amamos; confiar nas pessoas quando a esmagadora maioria das experiências que tivemos na vida nos induz a não confiar; uma criança dar-se a comer verduras quando sobre a mesa de refeições se encontram outras guloseimas; etc.

Então estaríamos fadados a nos conformar com o nosso ser, com aquilo que somos? Estamos então condenados a ser, agir e escolher apenas de acordo com aquilo que nos tornamos? Como sair desse círculo vicioso? Eis aqui a grande mudança de perspectiva proposta pelo espiritismo, pois ao tempo em que essa doutrina nos esclarece que estamos limitados a escolher a partir daquilo que somos, ela também nos esclarece que podemos, pela nossa vontade, mudar nossa natureza, inclusive tornando-nos capazes de escolher diferentemente do que escolhemos ao longo de todas as nossas existência precedentes, bem como na atual. Dissemos que a doutrina espírita é “mais próxima”, e não perfeitamente idêntica às filosofias materialistas, justamente porque a estas correntes de pensamento faltavam as peças capazes de explicar com maior exatidão esse complexo quebra cabeças chamado livre arbítrio, peças estas que são precisamente os conceitos de imortalidade da alma, de reencarnação e de progresso.

 Pelo conceito de imortalidade da alma, entendemos que não somos apenas matéria e que continuamos a existir após a morte do corpo físico, preservando todas as nossas características e tendências, intelectuais e morais. Pela ideia de reencarnação, passamos a compreender que o espírito já teve outras existências e que habitou multiplas moradas corpóreas, manifestando nos corpos em que reencarna as tendências, boas e más, que acumulou ao longo de suas existências pretéritas. Pela lei de progresso, enfim, fica claro que podemos e devemos evoluir ao longo de cada nova encarnação, as quais tem por objetivo justamente nos propiciar as condições necessárias para que possamos dar mais alguns passos no processo de aperfeiçoamento do espírito, rumo à nossa perfeição.

Portanto, o livre-arbítrio, segundo a espiritismo, não é um atributo pronto e acabado, recebido como uma “graça” de Deus, mas sim uma conquista do espírito, que é obtida ao longo de incontáveis encarnações e à medida que este evolui, tanto intelectual quanto moralmente, o que só ocorre ao longo e a partir do jogo de escolhas “tentativa-erro tentativa-acerto”, que nos demanda muito tempo. A natureza não dá saltos, e o homem, enquanto espírito perfectível, também faz parte da natureza.

Não fosse assim, seríamos absolutamente culpados por não conseguirmos agir tal qual um espírito puro, como Jesus, já mesmo em nossa encarnação atual. Não seríamos perdoáveis. Mas assim como um pai não exige de seus filhos pequenos que estes ajam como adultos, também Deus não exige perfeição de seus filhos (espíritos) que ainda estão atolados em processos e mundos – como a terra – carregados de limites e imperfeições.
Compreender isto é muito importante, pois faz com que adquiramos consciência para não viver nos culpando por ainda não sermos aquilo que achamos que já poderíamos ser.

Feitas estas considerações, fica bem mais fácil compreender porque o espírito pode até estacionar por um certo tempo em seu processo evolutivo, porém  amais degenerar, escolhendo assim, por exemplo, deixar de ser bom ou puro para voltar a ser imperfeito6. Daí porque é incompatível com a doutrina espírita qualquer teoria que defenda a “queda” do espírito, tais aquelas encontradas em correntes religiosas ou filosóficas que afirmam que a origem do mal ou do demônio residem na rebelião de um ou mais anjos contra Deus.
Afinal, se o espírito já é bom ou puro, segundo a escala espírita, então ele não pode mais fazer escolhas próprias de um espírito imperfeito, simplesmente porque não consegue, porque não é mais esta a sua natureza.

A partir de todas estas reflexões, restam ainda mais claras as razões pelas quais os espíritos nos recomendam a tolerância e a indulgência para com o próximo, pois não podemos exigir das pessoas atitudes que, pelo menos em determinado momento existencial, elas não podem ter. Misericórdia para todos, e para nós mesmos, pois ainda estamos aprendendo a fazer escolhas. Nas palavras de Sponville:

“Trata-se de compreender alguma coisa. O que? Que o outro é mau, se for, ou que está enganado, se estiver, ou que é fanático ou dominado por suas paixões, se paixões ou ideias o dominarem, enfim que lhe seria difícil, em todo caso, agir ao contrário do que ele é (por que milagre?) ou de se tornar subitamente bom, doce, razoável e tolerante... Perdoar:aceitar. Não para cessar de combater, é claro, mas para cessar de odiar.”7

Contudo, não podemos fazer deste conhecimento algo que nos leve ao comodismo. Lembremos que nossa vontade de mudar ainda é muito pequena.
Muitas vezes dizemos “quero deixar meus vícios”, mas muito satisfeitos ficamos que as coisas não sejam como “queremos”8. Contudo, se por um lado dificilmente poderemos nos tornar espíritos bons9 nesta encarnação, por outro os Espíritos também tem sempre insistido que nos é possível, mesmo na encarnação que vivemos agora, no planeta terra, conseguir evoluir a um ponto tal que não nos seja nem mesmo necessário reencarnar mais neste mundo. A este propósito, rememoremos a questão 909 de O Livro dos Espíritos:

909. Poderia sempre o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?

“Sim, e por vezes fazendo esforços bem pequenos. O que lhe falta é a vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços!”

Podemos ver, enfim, que é a partir desse jogo dialético que as mudanças ocorrem em nosso espírito: eu transformo minha natureza a partir das diferentes escolhas que vou fazendo; e passo a fazer escolhas diferentes quando consigo mudar minha natureza. O processo é assim mesmo, aparentemente contraditório e que nos faz lembrar aquilo que em lógica échamado de “petição de princípio”10. Porém não é difícil concluir, empiricamente, analisando a vida dos outros e a nossa própria, que isso efetivamente ocorre, pois muitos de nós somos capazes, hoje, de já fazer algumas escolhas que alguns anos atrás eram absolutamente impensáveis.

Nossa história registra vários exemplos de homens que conseguiram fazer mudanças significativas na sua natureza, pois deram mostras, em uma mesma encarnação, de que no início de suas vidas ainda carregavam tendências características de espíritos imperfeitos, mas alguns anos depois já eram exemplos dignos de bons espíritos. É o caso de personalidades como Paulo de Tarso, Santo Agostinho e São Vicente de Paulo, dentre outros.

Diante destes exemplos, e de tantos outros até mesmo menos conhecidos, o estudioso mais atento do espiritismo poderia objetar que, em oposição ao ponto de vista aqui exposto sobre o livre-arbítrio, existiriam algumas passagens da obra kardequiana capazes de contrariá-lo11.
Entendemos, contudo, que não há oposição entre estas ideias, a não ser a partir de um ponto de vista puramente teórico. Importante registrar, contudo, que não devemos tratar a “vontade” como sinônimo de “livre-arbítrio”. O fato é que este é um assunto que também guarda uma certa complexidade – para não dizer polêmica – filosófica, não sendo esta a oportunidade adequada para desenvolvê-lo. Correríamos o risco de misturar prolongadamente o estudo desses temas12, o que não é o caso quando se trata apenas de um breve artigo. Longe estamos, porém, de pretender nos arrogar como detentores da verdade. Estudemos mais, reflitamos mais. Todos nós!

Deste modo, vê-se que, segundo o nosso entendimento da teoria espírita, o espírito não foi criado com livre-arbítrio, mas sim para, dentre outras coisas, adquirir livre-arbítrio. Contudo, esta conquista do livre-arbítrio nunca será absoluta – nem mesmo para o espírito puro, que não pode escolher degenerar –, pois sempre teremos nossas escolhas condicionadas à nossa natureza, àquilo que somos.

Assunto encerrado? De modo algum! Esperamos, contudo, que com este pequeno texto tenhamos podido despertar no leitor um pouco mais de desejo de mergulhar à fundo na obra de Kardec e dos grandes filósofos a fim de entender um pouco mais sobre esse tema tão rico, complexo e apaixonante que é o livre-arbítrio. Podemos até não nos tornar mais sábios, mas se pelo menos conseguirmos ficar menos ignorantes a tentativa já terá valido à pena.

Daniel A. Lima – 05 de outubro de 2012

Referência;

1 Para um estudo abrangente do assunto, recomendamos o áudio nº 23 do “Estudo das Paixões”, que
pode ser acessado pelo link http://www.geak.com.br/site/upload/midia/mp3/releitura-dos-itens-118-893-
2 Para um estudo mais abrangente do assunto, inclusive destas duas correntes, recomendamos a leitura
do capítulo “Livre-Arbítrio”, no livro “Apresentação da Filosofia”, de André Comte-Sponville.
3 Confirmando o entendimento de que o livre-arbítrio se desenvolve à medida que o espírito progride,
veja-se também as questões 122, 540, 564, 609, 780, 844, 847 e 849 de O Livro dos Espíritos.
4 Sobre as influências do organismo, ver também as questões 845 e 846 de O Livro dos Espíritos.
5 Fazemos menção à “Escala Espírita” tratada por Allan Kardec nas questões 100 a 113 de O Livro dos
Espíritos.
6 Este assunto é tratado na questão 118 de O Livro dos Espíritos.
7 André Comte-Sponville, em “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, cap. 9 (Misericórdia), p. 134.
8 Ver a questão 911 de O Livro dos Espíritos.
9 “Bons” segundo a escala espírita.
10 A Petição de Princípio é uma forma de inferência que consiste em adotar, para premissa de um
raciocínio, a própria conclusão que se quer demonstrar. Ocorre sempre que se admite nas premissas o
que se deseja concluir. O caso mais óbvio é a mera repetição. Exemplo: “uma pessoa odeia as pessoas
de outra raça, porque é racista.”
11 Ver, por exemplo, O Evangelho Segundo o Espiritismo » Capítulo IX - Bem-aventurados os que são
brandos e pacíficos » Instruções dos Espíritos » A cólera » Item 10
(http://www.ipeak.com.br/site/estudo_janela_conteudo.php?origem=3217&idioma=1), bem como o texto
da Revista Espírita de Julho de 1963 intitulado “Poder da vontade sobre as paixões”
(http://www.ipeak.com.br/site/estudo_janela_conteudo.php?origem=5475&idioma=1).
12 Sobre o tema, ver, p. ex., a obra “Viver”, de André Comte-Sponville, Ed. Martins Fontes, cap. “Os
Labirintos da Moral”, Ed. Martins Fontes, 2ª edição, 2008, p. 174.

sábado, 1 de agosto de 2015

ESPIRITISMO DE VIVOS

Leopoldo Machado foi um dos iniciadores e concretizadores
de teses de educação e de teatro espírita

CEZAR BRAGA SAID

O “Espiritismo de vivos” tornou-se uma das bandeiras de um dos maiores espíritas que o Brasil já conheceu. Referimo-nos ao baiano Leopoldo Machado (1891-1957), nascido em Cepa Forte, hoje Jandaíra, completando-se este ano 50 anos de sua desencarnação.

Para fundamentar melhor este lema, Leopoldo chegou a escrever um livro intitulado Cruzada do Espiritismo de Vivos (1942)1 que, apesar do tempo, ainda permanece bastante atual pelo enfoque e pelo conteúdo. Nele, declara por meio de dez pontos, o que pretendia com semelhante bandeira.

Desejava e propunha um Movimento Espírita voltado principalmente para os encarnados, sem qualquer demérito para as práticas mediúnicas e para as relações estabelecidas com o mundo espiritual. Mas questionava o fato de a mediunidade, que ignifica“meio”, ser encarada e vivida com um fim em si mesma por alguns companheiros. Acreditava ser necessário se cultivar o intercâmbio sério e salutar com os Espíritos, mas não cultuá-los, reforçando os atavismos que trazemos do passado, muitas vezes ratificados na atual existência.

Entendia a evangelização da criança e do jovem como priori  prioridade nas atividades do Centro Espírita e que as mesmas deveriam se dar por meio da música, da poesia, da literatura, do teatro, da arte espírita de um modo geral. Educador que era, reconhecia que sem alegria, dinamismo e criatividade, não teríamos uma ação evangelizadora genuinamente prazerosa e verdadeiramente educativa.
Valorizava imensamente os movimentos confraternativos onde todos podemos estreitar laços,  aprender juntos por meio de conversas edificantes, em horas construtivas de convivência e de apreciação da arte espírita.

 Foi um dos grandes entusiastas das juventudes espíritas, do processo de Unificação que teve como marcos maiores o “Pacto Áureo” e a Caravana da Fraternidade, da qual foi integrante ativo juntamente com Lins de Vasconcellos, Francisco Spinelli, Carlos Jordão da Silva e Ary Casadio.

Afirma Antonio Cesar Perri, em livro de Eduardo Carvalho Monteiro, que no campo da Unificação Leopoldo teve uma ação pioneira que antecede mesmo a assinatura do “Pacto Áureo”, pois “participou do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita (São Paulo, 1948) e, na seqüência, foi responsável pelo I Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil (Rio de Janeiro, 1948). O dinâmico divulgador foi um dos iniciadores e concretizadores de teses de educação e de teatro espírita. Atuou como filantropo, expositor, polemista e autor de vários livros. Os reflexos de obras de Leopoldo estão presentes em todas as partes do país até quando se entoa a ‘Canção da Alegria Cristã’, pois é co-autor desta difundida música espírita”.2

A Caravana da Fraternidade percorreu 11 Estados do Norte e Nordeste, colhendo adesões ao “Pacto Aúreo” e divulgando os objetivos da Unificação. Em seu programa constavam conferências para o grande público, mesas-redondas com o objetivo de se chegar a consensos em torno do ideal unificacionista, visitas às instituições espíritas de assistência social, levando estímulos aos seus fundadores e colaboradores, além de programas sociais organizados pelos confrades que os recebiam.

De acordo com Clóvis Tavares,3 Leopoldo Machado publicou cerca de 30 livros e deixou mais 20 que, infelizmente, não vieram a lume. Escreveu por 24 anos para a revista Reformador, publicando poesias, crônicas, artigos e conferências.
Foi também colaborador assíduo dos periódicos O Clarim e Revista Internacional de Espiritismo, além de inúmeros outros jornais espíritas.
Espírito ativo fundou uma escola que até hoje é dirigida por seu sobrinho (Colégio Leopoldo, 1930), um lar destinado inicialmente ao abrigo de velhinhos e crianças (Lar de Jesus, 1942), um albergue noturno e uma escola de alfabetização na instituição espírita onde militou durante muitos anos, o Centro Espírita Fé, Esperança e Caridade, na cidade de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro.

A seu respeito, disse Carlos Imbassahy que “[...] dificilmente encontraremos nas fileiras do Espiritismo outro propagandista com tanta energia, com tanta coragem, com tanta personalidade.  Tal ou qual festividade corria mais ou menos fraca. Nisso aparecia Leopoldo; tudo se modificava, o seu gênio alegre, comunicativo, logo se transmitia a todos. O ambiente se enchia de vibração nova. Ele emprestava vida a tudo a que se associava”.4

Também o lúcido pensador, autor e divulgador espírita Deolindo  Amorim afirmou que Leopoldo era um espírita muito ativo, inconformado com a displicência, não compreendia o Espiritismo de “câmara mortuária” e por isso era vibrante e contagiante. Disse ainda Deolindo que  ambos tinham lá suas diferenças, mas isso não impedia que um e outro se quisessem bem e se olhassem como amigos: “Divergimos, mais de uma vez, em determinados pontos de vista, e nunca lhe escondi a minha objeção a esta ou aquela de suas opiniões, mas a nossa amizade nunca se rompeu, felizmente. Leopoldo Machado deixou, nas fileiras espíritas, um claro dificilmente preenchível. Que ele possa, do outro lado, na espiritualidade, continuar a nos dar estímulo [...]”.5

Decerto que este grande companheiro desaprovaria qualquer culto em torno da sua personalidade, mas muitas vezes vivemos à cata de novidades, novos autores, novas práticas e vamos seguindo esquecidos dos pioneiros, dos que pavimentaram o caminho para que pudéssemos ter um movimento mais liberto, arejado, valorizando o estudo e as relações mais cristãs, realmente fraternas.

Recordar Leopoldo Machado e conhecer o seu legado é fazer um tributo a todos os pioneiros do Espiritismo que, enfrentando dificuldades sem conta, souberam erseverar abrindo clareiras contra o preconceito e o divisionismo, em prol de um movimento onde possamos estar sempre ombro a ombro e sempre lado a lado, como companheiros, amigos e irmãos que vivem alegres não apenas pensando, mas fazendo o bem e nos querendo uns aos outros, também muito bem.

 Referências:

1MACHADO, Leopoldo. Cruzada do espiritismo de vivos. Matão: O Clarim, 1942.

2MONTEIRO, Eduardo Carvalho. Leopoldo Machado em São Paulo. São Paulo: USE, 1999.
3RAMOS, Clóvis. Leopoldo Machado. Idéias e ideais. Rio de Janeiro: CELD, 1995.
4 Jornal A Voz da União.
5AMORIM, Deolindo. “Algumas palavras sobre Leopoldo Machado”. Revista Internacional
de Espiritismo. Matão: O Clarim, 1957.


Fonte;  Reformador Ano 125 / Maio, 2007 / N o 2.138

A SALVAÇÃO SEGUNDO O ESPIRITISMO


Apesar do conceito de “Filosofia” ser um dos mais controversos da história do pensamento, uma das definições que reputamos seja uma das mais úteis e felizes é aquela dada pelo filósofo francês Luc Ferry, para quem a filosofia seria a busca de caminhos para vencer nossas angústias e medos relacionados à vida e à morte, utilizando para isso as nossas próprias forças e a razão1.

Ao seguirmos essa linha, estudando o Espiritismo através do prisma filosófico da salvação, vemos que os aspectos passíveis de serem explorados são números. Neste artigo, porém, ficaremos adstritos a apenas um deles, embora, em nosso entender, o principal. Isto porque, quando se trata de falar de salvação segundo a Doutrina Espírita, a mais importante ideia relacionada ao tema é aquela sintetizada por Allan Kardec na frase: “fora da caridade não há salvação”2. Vamos, então, tentar brevemente entender, interpretar e contextualizar um pouco desta afirmativa do Codificador.

O estudo sistemático do Espiritismo nos leva a compreender que a verdadeira caridade nos impele a praticá-la em suas três formas: benevolência,
indulgência e perdão3. A explicação da abrangência deste conceito, em seu tríplice modo de se manifestar, não será objeto deste artigo, dada a profundidade das sequências que cada um desses aspectos tem nas nossas vidas. Por agora, o que cabe ressaltar é que a prática da caridade não se restringe a servir ao próximo (benevolência), pois em pé de igualdade com ela também se encontram duas outras virtudes: a indulgência e o perdão4.

Partindo-se desta premissa, qual seria considerada a melhor e mais proveitosa caridade a ser feita, para nós e para o próximo? Seria participar da preparação de um “sopão” para os que passam fome? A visita a asilos de idosos ou a orfanatos? A doação de tempo e/ou dinheiro para instituições beneficentes? O auxílio e a visita a doentes? A divulgação da Doutrina Espírita e do bem de uma maneira geral? Compreender e tolerar as imperfeições e limitações do próximo? Perdoar aqueles que nos fizeram o mal? Não importa! Isto porque o fundamental, segundo a filosofia espírita, não é o gesto em si, porém os sentimentos e o (des) interesse que nos impelem a faz ê-lo. É claro que aqueles de nós que já conseguem se doar ao próximo com dedicação e carinho, esmo que não tenham sequer refletido a respeito da razão pela qual fazem isto – se por interesse pessoal ou não –, e assim aprendem a ser felizes, já deram um significativo salto evolutivo, de maneira que agir deste modo será sempre melhor do que não fazer nada ou do que fazer o mal. Isso não nos impede, contudo, de tentar ir um pouco mais além e de buscar entender a essência da caridade ensinada pela doutrina espírita.

Lembremos que a definição do nosso bem estar no plano espiritual não depende da quantidade de gestos bons que fizemos quando encarnados, mas sim da qualidade dos fluidos que envolvem e formam nosso perispírito. Por sua vez, este é determinado pela nossa evolução moral, que não é, segundo a Ciência Espírita, determinada por nossos gestos exteriores, mas sim pela verdadeira vivência das virtudes no nosso íntimo. Vejamos algumas passagens da obra “A Gênese” que bem ilustram isto:

A natureza do envoltório fluídico está sempre em relação com o grau de adiantamento moral do Espírito. (...).



Também resulta que: o envoltório perispirítico de um Espírito se modifica com o progresso moral que este realiza em cada encarnação, embora ele encarne no mesmo meio. (...).
(...). Ora, do mesmo modo que os peixes não podem viver no ar; que os animais terrestres não podem viver numa atmosfera muito rarefeita para seus pulmões, os Espíritos inferiores não podem suportar o brilho e a impressão dos fluidos mais etéreos. Não morreriam no meio desses fluidos, porque o Espírito não morre, mas uma força instintiva  os mantêm afastados dali, como a criatura terrena se afasta de um fogo muito ardente ou de uma luz muito deslumbrante. Eis aí por que não podem sair do meio que lhes é apropriado à natureza; para
mudarem de meio, precisam antes mudar de natureza, despojar-se dos instintos materiais que os retêm nos meios materiais; numa palavra, que se depurem e moralmente se transformem.5

Portanto, o “céu”, ou seja, a salvação, para aqueles que bem compreendem o Espiritismo, é um estado da alma, como bem ensinaram Kardec e os espíritos em diversas passagens da codificação, dentre elas a seguinte:

“A felicidade está na razão direta do progresso realizado, de sorte que, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto outro,  unicamente por não possuir o mesmo adiantamento intelectual e moral, sem que por isso precisem estar, cada qual, em lugar distinto. Ainda que juntos, pode um estar em trevas, enquanto que tudo resplandece para o outro, tal como um cego e um vidente que se dão as mãos: este percebe a luz da qual aquele não recebe a mínima
impressão. Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço. (...). Nessa imensidade ilimitada, onde está o Céu? Em toda parte. Nenhum contorno lhe traça limites.”6

A mesma coisa disse Jesus no Evangelho de Lucas:

“Interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está dentro de vós.”7

A parábola denominada de “O Óbolo da Viúva”, contada por Jesus, também ilustra esta ideia. Ali se narra que:

Estando Jesus sentado defronte do gazofilácio, a observar de que modo o povo lançava ali o dinheiro, viu que muitas pessoas ricas o deitavam em abundância. – Nisso, veio também uma pobre viúva que apenas deitou duas pequenas moedas do valor de dez centavos cada uma. – Chamando então seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta pobre viúva deu muito mais do que todos os que antes puseram suas dádivas no gazofilácio; – que todos os outros deram do que lhes abunda, ao passo que ela deu do que lhe faz falta, deu mesmo tudo o que tinha para seu sustento.8

Por que a viúva, que pouco deu comparado às pessoas ricas, tinha mais mérito? Porque o sentimento que a movia para ajudar era sincero e verdadeiro, capaz de sacrificar até mesmo suas próprias necessidades e interesses. Portanto, pouco importa, ao final, que a quantidade doada seja grande, se o sentimento por trás do gesto é pequeno.

Aliás, vivêssemos nós sujeitos a uma “contabilidade moral” – precisa, atemática e absoluta
–, como explicaríamos a salvação de Paulo de Tarso, um exemplo de vida em que se pode ver o salto de um Espírito ainda cheio de más paixões para se transformar em Espírito bom em uma mesma encarnação9? Fosse implacável a lógica ensinada por Jesus em advertência a Pedro10, Paulo ainda teria tido de reencarnar inúmeras vezes a fim de expiar todas as injustiças e mortes pelas quais foi responsável em relação ao cristianismo e seus adeptos. Contudo, muito mais importante do que a Lei de Talião (olho por olho, dente por dente) é o princípio segundo o qual “o amor cobre a multidão de pecados”. Foi justamente o que Paulo entendeu e viveu.

Nós, porém, muitas vezes entendemos estes conceitos equivocadamente, achando – e, pior, divulgando – que todo mal que sofremos é consequência de um erro que cometemos no passado, ou que todo mal/erro que praticarmos hoje terá que ser necessariamente sofrido de volta no futuro. E não percebemos que esta ideia nos joga dentro de uma lógica perversa e insolúvel, que só poderia ser legitimada por um Deus sádico e malvado.

Aliás, a parábola dos “Trabalhadores da Última Hora” também nos ensina muito a este respeito. Dentre as várias lições que podem ser extraídas desta passagem, uma delas, que por agora vai nos interessar, diz respeito ao fato de que para ser “salvo” não é preciso “trabalhar” no bem a mesma e precisa quantidade daqueles que começaram primeiro, mas sim integrar-se ao trabalho com o mesmo amor e piedade11.

Sobre o assunto também é importante lembrar a questão 919 de O Livro dos Espíritos, que trata do autoconhecimento. Ali, Santo Agostinho pede que nos perguntemos, ao nos questionarmos sobre nossa conduta diária, se teríamos vergonha de nós mesmos, caso fossemos chamados de volta ao mundo dos espíritos, “onde nada pode ser ocultado, notadamente nossos pensamentos”.

A provocação feita por Santo Agostinho é bastante válida e nos faz lembrar uma alegoria contada por Platão no livro “A República”. Nela um pastor, chamado Giges, encontra por acaso um anel que lhe dá poderes para ficar invisível às outras pessoas. Aproveitando-se desta sua nova e inesperada faculdade, Giges muda seu caráter e passa a praticar uma série de más ações: mata o rei, seduz a rainha e assume o poder12. E então, como será que nos comportaríamos se encontrássemos o anel de Giges, de Platão, e nos tornássemos invisíveis? Será que continuaríamos nos preocupando com nossa conduta ética? Será que resistiríamos à tentação e aos prazeres do mal se soubéssemos que nossos atos não seriam testemunhados pelos olhos dos outros?

Outra alegoria interessante pode ser extraída de uma conhecida obra de ficção. No filme “Drácula”, dirigido por Francis Ford Coppola, são exibidas diversas passagens em que o vampiro conversava de um modo educado e cavalheiresco com as pessoas, porém sua sombra, que seprojetava atrás da cena, movia-se de modo independente, denunciando e refletindo assim o seu real pensamento e vontade.

Pois bem. Deixando de lado o fantasioso destas alegorias, poderíamos comparar nossas faculdades, na erraticidade, às de Giges quando usa o anel, e nosso perispírito à “sombra do Drácula”, pois nosso Espírito ali, além de invisível a muitos, não possuirá mais a máscara do corpo físico, que possibilita a contenção dos nossos pensamentos dentro de limites bem mais estreitos, o
que nos permite assim ser até mesmo hipócrita diante do outro, sem que queles que convivem conosco necessariamente percebam essa falsidade de sentimentos. Tal como Kardec nos ensinou:

“Criando imagens fluídicas, o  pensamento se reflete no envoltório perispirítico, como num espelho; toma nele corpo e aí de certo modo se fotografa. Tenha um homem, por exemplo, a ideia de matar a outro: embora o corpo material se lhe conserve impassível, seu corpo fluídico é posto em ação pelo pensamento e reproduz todos os matizes deste último; executa fluidicamente o gesto, o ato que intentou praticar. O pensamento cria a imagem da vítima e a cena inteira é pintada, como num quadro, tal qual se lhe desenrola no espírito.
Desse modo é que os mais secretos movimentos da alma repercutem no envoltório fluídico;
que uma alma pode ler noutra alma como num livro e ver o que não é perceptível aos olhos do corpo.”13

Assim, por maior que seja a quantidade de tempo que tenhamos dedicado em nossa encarnação praticando a beneficência, se não tivermos melhorado ossos sentimentos e promovido verdadeiramente nossa moralização íntima, domando assim nossas paixões, de nada esse bem exterior terá adiantado. Talvez isto penas nos faça sentir mais culpados.

Portanto, a caridade que salva, aquela preconizada por Kardec, não é um gesto, mas um estado de espírito, que deve estar presente em nós permanentemente, pois a qualquer momento poderemos ser chamados a praticá-la – p. ex., numa simples conversa, diante da dificuldade de pessoas que não conhecemos, em horas e lugares inesperados, etc. –, e não apenas em momentos pré- determinados e reservados por nós para fazer o bem, como aqueles em que estamos no grupo espírita. Logo, conclui-se que fora dos verdadeiros sentimentos que nos impelem à caridade, ou seja, fora da vivência legítima e sincera das virtudes em nosso íntimo, é que não há salvação.

Vemos, portanto, que é um equívoco interpretar a prática da caridade segundo um entendimento de “troca”, de uma “contabilidade das boas ações”. Contudo, parece-nos que, apesar da compra e venda de indulgências como meio de garantir um lugar no “céu” ter deixado de existir faz muitos séculos, nós talvez ainda tragamos em nosso subconsciente – o que em boa parte se explica pela reencarnação – a mesma lógica de troca e barganha com Deus, por meio da qual eu obtenho a salvação bastando para isso apenas fazer algum gesto exterior de natureza caritativa. Daí porque ainda hoje muitos de nós continuamos pretendendo “comprar o céu”, não mais com dinheiro, porém acumulando o bem apenas pela prática de tais gestos, sem se importar intimamente em reformar o caráter réprobo que ainda carregamos.

Mas o Espiritismo é muito exigente, pois não basta viver e praticar a beneficência. Essa vivência, além de ser sincera e verdadeira, tem que se assentar no mais puro desinteresse14. E este desinteresse abrange inclusive as consequências que daí possam advir à nossa condição na vida futura. Vejamos o que os Espíritos dizem a este respeito, na questão 897 de O Livro dos Espíritos:

897. Merecerá reprovação aquele que faz o bem sem visar a qualquer recompensa na Terra, mas esperando que lhe seja levado em conta na outra vida e que lá venha a ser melhor a sua situação? E essa preocupação lhe prejudicará o progresso?

“O bem deve ser feito caritativamente, isto é, com desinteresse.”

a) – Contudo, todos alimentam o desejo muito natural de progredir, para forrar-se à penosa condição desta vida. Os próprios Espíritos nos ensinam a praticar o bem com esse objetivo.
Será, então, um mal pensarmos que, praticando o bem, podemos esperar coisa melhor do que temos na Terra?

“Não, certamente; mas aquele que faz o bem sem ideia preconcebida, pelo só prazer de ser agradável a Deus e ao seu próximo que sofre, já se acha num certo grau de progresso, que lhe permitirá alcançar a felicidade muito mais depressa do que seu irmão que, mais positivo, faz
o bem por cálculo e não impelido pelo ardor natural do seu coração.” (894)

b) – Não haverá aqui uma distinção a estabelecer-se entre o bem que podemos fazer ao nosso próximo e o cuidado que pomos em corrigir-nos dos nossos defeitos? Concebemos que seja pouco meritório fazermos o bem com a ideia de que nos seja levado em conta na outra vida; mas será igualmente indício de inferioridade  emendarmo-nos, vencermos as nossas paixões, corrigirmos o nosso caráter, com o propósito de nos aproximarmos dos Espíritos bons e de nos elevarmos?

“Não, não. Quando dizemos fazer o bem queremos significar ser caridoso. Procede como egoísta todo aquele que calcula o que lhe possa cada uma de suas boas ações render na vida futura, tanto quanto na vida terrena. Nenhum egoísmo, porém, há em querer o homem melhorar-se, para se aproximar de Deus, pois que é o fim para o qual devem todos tender.”
 Importante lembrar, por fim, que essa salvação pela caridade independe de sermos adeptos do Espiritismo, bem como do fato de sermos frequentadores ou trabalhadores de qualquer grupo espírita15. De fato, pouco importa quantas vezes alguém foi para o estudo ou quantas aulas ou palestras  ministrou, ou quantos artigos sobre Espiritismo escreveu, se isto não ocasionou uma melhoria verdadeira no íntimo do indivíduo. Porém, parece que às vezes preocupamo-nos mais em “converter” as pessoas ao Espiritismo do que em tentar ser um exemplo de homem de bem.
Preocupamo-nos demasiadamente em salvar o mundo e os outros, quando deveríamos primeiramente trabalhar para nos salvar de nós mesmos, dos  nossos vícios, de nossos defeitos e de nossos apegos aos bens materiais. Façamos isto e já estaremos fazendo muita coisa, por nós, pelos outros e pelo
mundo também.

E apesar de nossa meta ser um dia conseguirmos agir por desinteresse, devemos ter consciência de que não o conseguiremos imediatamente. Então comecemos a agir no bem, ainda que de início isto ocorra por interesse “na nossa salvação”, e aí aos poucos o desinteresse irá ganhando lugar. Isto nos faz recordar mais uma belíssima frase de Kardec que, ao comentar os efeitos do pensamento no homem, lembra que “se o egoísmo o levava a desconhecer as consequências, para outrem, de um pensamento perverso, pessoalmente seu, por esse mesmo egoísmo ele se verá induzido a ter bons pensamentos, para elevar o nível moral da generalidade das criaturas, atentando nas consequências que sobre si mesmo produziria um mau pensamento de outrem16.

Desta forma, se alguém quiser saber se, após a morte, será “salvo”, se terá um “bom lugar” no mundo espiritual, que pergunte a si mesmo: as virtudes, o bem e o amor já fazem parte indissociável do meu ser e do meu íntimo? Estou pronto para expor aos outros – porque, na erraticidade, não terei mesmo como esconder – tudo aquilo que penso, já que, mesmo invisível (espírito) para os encarnados, eu só pensarei nas virtudes, no bem e no amor? Minha vida passou a girar fundamentalmente em torno da caridade desinteressada? Independentemente de onde, como ou a quem fiz o bem, eu o fiz e continuaria a fazer, desinteressadamente, sem esperar nada em troca, mesmo que eu me tornasse invisível e soubesse que ninguém estaria fiscalizando meus atos? Eu já estou habituado em tentar me tornar uma pessoa de bem, independentemente da minha condição financeira ou social? Enfim, se essa pessoa conseguir responder sim a estas perguntas, então não deve se preocupar com sua sorte futura, se conseguirá se salvar ou se irá para “o céu”, pois na verdade ela já estará salva e habitando-o aqui mesmo!

Daniel A. Lima - 10 de Novembro de 2011

Referência;

1 Para uma abordagem ampla do conceito de filosofia enquanto soteriologia, ou seja, enquanto estudo da salvação através da razão,
ver o excelente livro de Luc Ferry, “Aprender a Viver”.
2 Capítulo XV de O Evangelho Segundo o Espiritismo.
3 Ver a questão 886 de O Livro dos Espíritos: Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus? “Benevolência
4 Para uma análise mais ampla do tema, ver o artigo “Caridade e Amor”, de Silvio Seno Chibeni, em
http://www.geak.com.br/site/upload/midia/pdf/caridade_e_amor_-_silvio_chibeni.pdf
5 As três passagens foram extraídas, respectivamente, dos itens 9, 10 e 11, Cap. XIV, da obra “A Gênese”.
6 O Céu e o Inferno, Primeira Parte, Doutrina, Capítulo III - O Céu, item 06.
7 Lucas 17: 20 e 21.
8 Marcos, 12: 41 a 44; e Lucas, 21: 1 a 4.
9 Para um melhor entendimento da vida de Paulo de Tarso, conferir a obra “Paulo e Estevão”, psicografada por Francisco Cândido
Xavier.
10 “Pedro, embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão.” (Mateus 26: 52)
11 Para uma correta compreensão da palavra “Piedade”, ver o artigo de Terezinha Colle, “Sobre a Palavra Piedade”, em
http://www.geak.com.br/site/upload/midia/pdf/sobre_a_palavra_piedade.pdf
12 A República, Livro II.
13 A Gênese, Cap. XIV, item 15.
14 Ver a questão 893 de O Livro dos Espíritos.
15 982. Será necessário que professemos o Espiritismo e creiamos nas manifestações espíritas para termos assegurada a nossa sorte
na vida futura?
“Se assim fosse, seguir-se-ia que estariam deserdados todos os que não crêem, ou que não tiveram ensejo de esclarecer-se, o que seria
absurdo. Só o bem assegura a sorte futura. Ora, o bem é sempre o bem, qualquer que seja o caminho que a ele conduza.” (165-799)
A crença no Espiritismo ajuda o homem a se melhorar, firmando-lhe as ideias sobre certos pontos atinentes ao futuro. Apressa o
adiantamento dos indivíduos e das massas, porque faculta nos inteiremos do que seremos um dia. É um ponto de apoio, uma luz que
nos guia. O Espiritismo ensina o homem a suportar as provas com paciência e resignação; afasta-o dos atos que possam retardar-lhe a
felicidade, mas ninguém diz que, sem ele, não possa ela ser conseguida.
- Ver também a parábola do bom samaritano, no ESE, cap. XV, e ainda o item 9 deste mesmo capítulo.
16 Obras Póstumas, Capítulo “Fotografia e Telegrafia do Pensamento”. A frase de Kardec se se assemelha a esta outra, de Sócrates: “Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade.”

ARREPENDIMENTO, EXPIAÇÃO, PROVA, REPARAÇÃO


Terezinha Colle

O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus, e o mal tudo o que desta se afasta. Assim, fazer o bem é conformar-se à lei de Deus;fazer o mal é infringi-la.1

Parece haver, por parte de muitas pessoas, uma certa dificuldade para entender suas relações com as leis divinas. Talvez isso se dê por causa da ideia equivocada que se tem sobre a justiça divina e a maneira como ela se processa. Essa situação de dúvidaé geradora de incredulidade, podendo causar sofrimento e mesmo o afastamento do homem de seu Criador.

Como na escala dos mundos a Terra é um dos mais inferiores, nela habitam homens imperfeitos que, vendo-se fragilizados pelas faltas cometidas, e muitas vezes sem forças para lutar, temem buscar em Deus o auxílio de que necessitam para retomar o caminho do bem, adiando assim sua própria felicidade.

Com as luzes do progresso intelecto-moral a humanidade abandonou a ideia das penas eternas e, por conseguinte, a ideia de inferno como lugar de punição e de um céu para a ociosidade eterna.
No entanto, mesmo tendo abandonado essas ideias equivocadas, o homem ainda se debate para compreender como deve se comportar diante dos reveses da vida e perante as leis de Deus, inscritas em sua própria consciência.

À Ciência espírita estava reservada a tarefa de esclarecer o homem sobre como se processa a justiça divina com vistas ao aperfeiçoamento moral das criaturas. 

Essa Doutrina veio trazer um novo conceito inerente à lei de progresso, de adiantamento moral da humanidade, quando ocorre de o homem infringir as leis divinas e se afastar do caminho do bem. Esse conceito é o de: REPARAÇÃO.

Nosso objetivo é buscar, nos textos de Kardec, uma melhor compreensão das palavras ARREPENDIMENTO, EXPIAÇÃO, PROVA e REPARAÇÃO, para que possamos compreender o que elas significam no contexto da doutrina espírita.

Algumas considerações sobre os termos: arrependimento e penitência.

Comecemos pelo arrependimento, que é o primeiro movimento da alma infratora, rebelde ou, como se diz comumente, pecadora, que deseja reajustar-se às leis divinas. 

A palavra francesa utilizada por Kardec, referindo-se ao arrependimento, foi repentant. E aqui vale uma breve reflexão sobre esse termo, para que possamos compreender melhor a ideia que lhe está associada na ciência da alma.

A palavra repentant é relativa a Repentance, que “é a dor que se experimenta pelos pecados e que leva a uma mudança de atitude chamada conversion [conversão].
Esses dois estados, repentance e conversion, são de tal forma solidários, tão organicamente ligados, que  o Antigo Testamento os exprime frequentemente por uma
mesma palavra, tanto uma leva à outra. O arrependimento do pecado consiste em ‘voltar’, em ‘retornar’ a Deus.

Ocorre que a Igreja católica romana substituiu a noção de repentance [arrependimento] pela de penitence [penitência], que tomou na tradução latina do Novo Testamento (Vulgata).2 A penitência, da qual a Igreja romana fez um sacramento, é mais uma atitude eclesisástica e ritual do que uma transformação moral profunda. Ela corresponde à concepção católica da salvação pelas obras.” 3

Em que isso poderia comprometer o nosso entendimento?
Primeiramente, por que Kardec jamais utilizou as palavras penitence (penitência) e penitent (penitente), e isso porque certamente sabia que essas palavras são carregadas de significados que não correspondem à verdadeira noção de arrependimento proposta pelo Espiritismo. Nas obras de Kardec em língua francesa encontram-se essas palavras, mas somente nos textos em que estavam originalmente inseridas, como é o caso das citações do Novo Testamento.

Acontece que alguns tradutores, ao verterem os textos originais de Kardec para o português, substituíram o termo repentance, que deveria ser traduzido por arrependimento, por penitente, o que compromete seriamente a ideia.

O termo penitência, que deu origem à palavra penitenciária, traz em si um certo peso, uma ideia de punição, de castigo; sugere uma pena imposta por um tribunal, e não uma transformação moral profunda e voluntária, fruto do amadurecimento do senso moral, como é o caso do arrependimento. Embora nos dicionários da língua portuguesa as palavras arrependimento e penitência geralmente apareçam como sinônimas, o significado de penitência que predomina é: “Pena imposta pelo confessor. Um dos sete sacramentos da Igreja. Qualquer sacrifício para expiação de pecados (jejuns, orações etc.). Castigo. Incômodo, tormento.” 4 “Castigo público imposto pelo tribunal da Inquisição.”5

Como não comprometer o entendimento do significado de uma palavra que traz a ideia de transformação moral profunda e voluntária, quando a substituímos por outra que traz a de uma imposição de outro tribunal que não seja o da própria consciência do infrator?

É possível submeter alguém à força, exigir uma abjuração, uma confissão que não venha da intimidade, mas não é isso o que faz a alma dobrar-se sobre si mesma, como é o caso do arrependimento.

Outro inconveniente bem pode ser o de confundirmos o verdadeiro sentido do arrependimento com prática exteriore, ou obras feitas para agradar a Deus com intuito de obter seu perdão, sem corrigirmos nossos pensamentos, sentimentos e atos. Eis o que escreveu Kardec sobre este assunto:

“O arrependimento é o primeiro passo para a melhoria; mas não basta por si só, é preciso ainda a expiação e a reparação. Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.

O arrependimento suaviza as dores da expiação, porque traz a esperança e prepara o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa; o perdão seria então uma graça e não uma anulação.

“O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer tempo; se for tardio, o culpado sofre por mais tempo. 

A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais, que são a consequência da falta cometida, seja desde a vida presente, seja, após a morte, na vida espiritual, seja numa nova existência corporal, até que os últimos traços da falta sejam apagados.” 6

Kardec, sempre coerente em todos os preceitos da Doutrina, referindo-se aos Espíritos que ainda não foram tocados de arrependimento, não os chama de impenitentes, chama-os de endurecidos.

Os maus Espíritos são aqueles que ainda não foram tocados de arrependimento; que se deleitam no mal e nenhum pesar por isso sentem; que são insensíveis às reprimendas, repelem a prece e muitas vezes blasfemam do nome de Deus. São essas almas endurecidas que, após a morte, se vingam nos homens dos sofrimentos que suportam, e perseguem com o seu ódio aqueles a quem odiaram durante a vida, seja pela obsessão, seja exercendo sobre eles qualquer influência funesta

Referindo-se aos Espíritos arrependidos, diz o Mestre:

Seria injusto incluir na categoria dos maus Espíritos os Espíritos sofredores e arrependidos que pedem preces; estes últimos podem ter sido maus, porém, já não o são desde o momento que reconhecem suas faltas e as lamentam; são apenas infelizes; alguns começam mesmo a gozar de uma felicidade relativa.7

Expiações, provas e reparação

Vejamos agora a palavra EXPIAÇÃO, conforme o próprio Kardec a define:
Pena que sofrem os Espíritos em punição de faltas cometidas durante a vida corporal. A expiação, como  sofrimento moral, se dá no estado errante; como sofrimento físico, ela se dá no estado corporal. As vicissitudes e os tormentos da vida corporal são, ao mesmo tempo, provas para o futuro e uma expiação para o passado.8

No entanto, “A expiação, no mundo dos Espíritos e na Terra, não é um duplo castigo para o Espírito; é o mesmo que continua na Terra, como complemento, com vistas a lhe facilitar sua melhora por um trabalho efetivo; depende dele tirar disso proveito. Não lhe é preferível voltar à Terra com a possibilidade de ganhar o céu, a ser condenado a deixa-la sem remissão? Essa liberdade que lhe é concedida é uma prova da sabedoria, da bondade e da justiça de Deus, que quer que o homem tudo deva aos seus esforços e seja o artífice do seu futuro; se é infeliz, e o é por mais ou menos tempo, não pode disso se quiexar senão de si mesmo: a via do progresso lhe está sempre aberta.9

Ainda segundo o Mestre, o que são PROVAS:

Vicissitudes da vida corporal pelas quais os Espíritos se depuram de acordo com a maneira como as sofrem. Segundo a doutrina espírita, o Espírito livre do corpo, reconhecendo sua imperfeição, escolhe ele mesmo, por um ato de seu livre-arbítrio, o gênero de provas que julga o mais próprio ao seu adiantamento, e que sofrerá em uma nova existência. Se escolher uma prova acima de suas forças ele sucumbe, e seu adiantamento é retardado.10

De tudo o que foi dito acima, nota-se claramente que a liberdade do infrator é sempre preservada, inclusive na escolha das provas por que terá de passar. E isso é perfeitamente compreensível no processo de reabilitação moral do Espírito imortal, uma vez que o que prescrevem as leis divinas é o progresso efetivo, a regeneração dotransgressor, e não um sofrimento que nada produza de útil.

E quanto à REPARAÇÃO, como entendê-la no contexto da ciência espírita?
Vejamos o que dizem os Sábios da imortalidade:

“A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal. Aquele que não repara as suas faltas nesta vida, por fraqueza ou má-vontade, se encontrará, numa existência ulterior, em contacto com as mesmas pessoas que dele tiveram queixas, e em condições escolhidas por ele mesmo, de maneira a poder lhes provar seu devotamento, e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. 

Nem todas as faltas trazem prejuízo direto e efetivo; nesses casos, a reparação se realiza fazendo-se o que se deveria fazer e não foi feito, cumprindo os deveres negligenciados ou desprezados, as missões em que se faliu; praticando o bem em contrapartida ao que se fez de mal: isto é, sendo humilde se foi orgulhoso, afável se foi áspero, caridoso se foi egoísta, benevolente se foi malevolente, laborioso se foi preguiçoso, útil se foi inútil, temperante se foi dissoluto, bom exemplo se o foi mal, etc. É assim que o Espírito progride tirando proveito do seu passado.”

“A necessidade da  reparação é um princípio de rigorosa justiça que podemos considerar como a verdadeira lei de reabilitação moral dos Espíritos. É uma doutrina que nenhuma religião havia ainda proclamado.

Entretanto, algumas pessoas a repelem porque acham mais cômodo poder apagar seus malefícios por um simples arrependimento, que não custa mais que palavras e a ajuda de algumas fórmulas; crendo-se assim quites, verão mais tarde se isso lhes basta.
Poderíamos lhes perguntar se esse princípio não é consagrado pela lei humana, e se a justiça de Deus pode ser inferior à dos homens? Se se dariam por satisfeitas com um indivíduo que, tendo-as arruinado por abuso de confiança, se limitasse a dizer que lamenta infinitamente. Por que recuariam diante de uma obrigação que todo homem honesto se impõe cumprir como um dever, na medida de suas forças?

Quando esta perspectiva da reparação for inculcada na crença das massas, ela será um freio bem mais poderoso que o inferno e as penas eternas, porque ela diz respeito à atualidade da vida, e o homem compreenderá a razão de ser das circunstâncias penosas de onde ele se acha colocado.11

A expiação serve sempre de prova, mas nem sempre a prova é uma expiação

Em face de tudo o que foi exposto poderíamos supor que todo sofrimento experimentado nesta vida resulta de uma falta cometida, mas assim não é. Vejamos o que dizem os Espíritos:

“Não há crer, no entanto, que todo sofrimento suportado neste  mundo denote a existência de uma determinada falta. Muitas vezes são simples provas buscadas pelo Espírito para concluir a sua depuração e apressar o seu progresso. Assim, a expiação serve sempre de prova, mas nem sempre a prova é uma expiação. Provas e expiações, todavia, são sempre sinais de relativa inferioridade, porquanto o que é perfeito não precisa ser provado. Pode, pois, um Espírito haver chegado a certo grau de elevação e, nada obstante, desejoso de adiantar-se mais, solicitar uma missão, uma tarefa a executar, pela qual tanto mais recompensado será, se sair vitorioso, quanto mais rude haja sido a luta. Tais são, especialmente, essas pessoas de instintos naturalmente bons, de alma elevada, de nobres sentimentos inatos, que parece nada de mau haverem trazido de suas precedentes existências e que sofrem, com resignação toda cristã, as maiores dores, somente pedindo a Deus que as possam suportar sem murmurar. Pode-se, ao contrário, considerar como expiações as aflições que provocam queixas e impelem o homem à revolta contra Deus.

Sem dúvida, o sofrimento que não provoca queixumes pode ser uma expiação; mas é indício de que foi buscada voluntariamente, antes  que imposta, e constitui prova de forte resolução, o que é sinal de progresso.” 12

Então uma expiação pode ser imposta? E como ficaria a liberdade? Consultemos os Espíritos:

Como pode o Espírito, que, em sua origem, é simples, ignorante e carecido de experiência, escolher uma existência com conhecimento de causa e ser responsável por essa escolha?

“Deus lhe supre a inexperiência, traçando-lhe o caminho que deve seguir, como fazeis com a criancinha. Pouco a pouco, porém, à medida que o seu livre-arbítrio se desenvolve, deixa-o senhor de proceder à escolha, e só então é que muitas vezes lhe acontece extraviar-se, tomando o mau caminho, por desatender os conselhos dos Espíritos bons. A isso é que se pode chamar a queda do homem.”

- Quando o Espírito goza do livre-arbítrio, a escolha da existência corporal dependerá sempre exclusivamente de sua vontade, ou essa existência lhe pode ser imposta, como expiação, pela vontade de Deus?

“Deus  sabe esperar, não apressa a expiação. Todavia, pode impor certa existência a um Espírito, quando este, pela sua inferioridade ou má-vontade, não se mostra apto acompreender o que lhe seria mais benéfico, e quando vê que tal existência servirá para a purificação e o progresso do Espírito, ao mesmo tempo que lhe sirva de expiação.”13

Os Espíritos em expiação vieram de outros mundos: são exóticos na Terra

O Epiritismo vem nos esclarecer, também, sobre a situação do mundo em que vivemos:

“A Terra pode ser considerada ao mesmo tempo um mundo de educação para os Espíritos pouco avançados, e de expiação para os Espíritos culpados. Os males da humanidade são consequência da inferioridade moral da maioria dos Espíritos encarnados.
Pelo contato de seus vícios, eles se tornam reciprocamente infelizes e punem-se uns aos outros. 14

Vejamos o que diz Santo Agostinho sobre esse assunto:

(…)“Nem todos os Espíritos que encarnam na Terra vão para aí em expiação. As raças a que chamais selvagens são formadas de Espíritos que apenas saíram da infância e que na Terra se acham, por assim dizer, em curso de educação, para se desenvolverem pelo contacto com Espíritos mais adiantados. Vêm depois as raças semi-civilizadas, constituídas desses mesmos Espíritos em via de progresso. São elas, de certo modo, raças indígenas da Terra, que aí se elevaram pouco a pouco em longos períodos seculares, algumas das quais hão podido chegar ao aperfeiçoamento intelectual dos povos mais esclarecidos.

“Os Espíritos em expiação, se nos podemos exprimir dessa forma, são exóticos, na Terra; já viveram noutros mundos, donde foram excluídos em consequência da sua obstinação no mal e por se haverem constituído, em tais mundos, causa de perturbação para os bons.15 Tiveram de ser degredados, por algum tempo, para o meio de Espíritos mais atrasados, com a missão de fazer que estes últimos avançassem, pois levam consigo inteligências desenvolvidas e o gérmen dos conhecimentos que adquiriram. Daí vem que os Espíritos em punição se encontram no seio das raças mais inteligentes. Por isso mesmo, para essas raças é que de mais amargor se revestem os infortúnios da vida.
É que há nelas mais sensibilidade, sendo, portanto, mais provadas pelas contrariedades e desgostos do que as raças primitivas,  cujo senso moral se acha mais embotado.”

“A Terra, conseguintemente, oferece um dos tipos de mundos expiatórios, cuja variedade é infinita, mas  revelando todos, como caráter comum, o servirem de lugar de exílio para Espíritos rebeldes à lei de Deus. Esses Espíritos têm aí de lutar, ao mesmo tempo, com a perversidade dos homens e com a inclemência da Natureza, duplo e árduo trabalho que simultaneamente desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência.
É assim que Deus, em sua bondade, faz que o próprio castigo redunde em proveito doprogresso do Espírito.”16

Se assim é, e se não pertencemos às raças chamada selvagens ou indígenas da Terra, somos os Espíritos em expiação, somos exóticos neste mundo, ou seja, vivemos em outros mundo e para cá fomos degredados, como alunos expulsos da escola por causa de sua rebeldia…

Assim fica mais fácil compreender as palavras do Espírito de Verdade, quando diz: 

“Venho, como outrora,  entre os filhos transviados de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como outrora a minha palavra, deve lembrar aos incrédulos que acima deles reina a imutável verdade: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinem as plantas e se levantem as ondas. Revelei a doutrina divinal. Como um ceifeiro, reuni em feixes o bem esparso na Humanidade e disse: “Vinde a mim, todos vós que sofreis.”

Mas os homens ingratos se desviaram do caminho reto e largo que conduz ao reino de meu Pai e enveredaram pelas ásperas sendas da impiedade. Meu Pai não quer aniquilar a raça humana; quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, isto é, mortos segundo a carne, porquanto não existe a morte, vos socorrais mutuamente, e que se faça ouvir não mais a voz dos profetas e dos apóstolos, mas a dos que já não estão mais no corpo, a clamar: Orai e crede! pois a morte é a ressurreição, e a vida a prova escolhida, durante a qual as virtudes que houverdes cultivado crescerão e se desenvolverão como o cedro.

Homens fracos, que  compreendeis as trevas das vossas inteligências, não afasteis o facho que a clemência divina vos coloca nas mãos para vos clarear o caminho e reconduzir-vos, filhos perdidos, ao regaço de vosso Pai. 

Sinto-me por demais  tomado de compaixão pelas vossas misérias, pela vossa fraqueza imensa, para deixar de estender mão socorredora aos infelizes transviados que, vendo o céu, caem nos abismos do erro. Crede, amai, meditai sobre as coisas que vos são reveladas; não mistureis o joio com a boa semente, as utopias com as verdades.

Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo. No Cristianismo encontram-se todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram. Eis que do além-túmulo, que julgáveis o nada,  vozes vos clamam: “Irmãos! nada perece. Jesus-Cristo é o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade.”17

Encerramos com um apelo afetuoso do nosso querido Lamennais:

“Pobres ovelhas desgarradas, sabei ver o bom Pastor que vem de longe e que em vez de querer banir-vos para sempre de sua presença, ele mesmo vem ao vosso encontro para vos reconduzir ao aprisco. Filhos pródigos, deixai o vosso exílio voluntário; dirigi vossos passos para a morada paterna: o pai vos estende os braços e está sempre pronto a festejar o vosso retorno à família.”18

Referência;

1 O livro dos Espíritos, item 630.
2 Tradução feita por São Jerônimo, no século IV.
3 Dictionnaire  Encyclopédique de la Bible A. Westphal – Repentance.
4 Michaelis – Moderno dicionário da língua portuguesa, verbete: penitência.
5 Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, vocábulo: penitência.
6 O Céu e o Inferno, cap. VII - As penas futuras - Código penal da vida futura, 16ª.
7 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVIII - Coletânea de preces espíritas - IV - Preces pelos que já não são da
terra - Pelos Espíritos arrependidos, item 73.
8 Instruções práticas sobre as manifestações espíritas - Vocabulário Espírita – EXPIAÇÃO.
9 O Céu e o Inferno - Primeira Parte – Doutrina, cap. V - O Purgatório, item 6.
10 Instruções práticas sobre as manifestações espíritas - Vocabulário Espírita – PROVAS.
11 O Céu e o Inferno, cap. VII - As penas futuras - Código penal da vida futura, 17ª e comentário de Kardec.
12 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V - Bem-aventurados os aflitos -Causas anteriores das aflições, item 9.
13 O Livro dos Espíritos, item 262

14 O que é o Espiritismo? Cap. III, item 132.
15 Veja-se: Doutrina dos Anjos decaídos e da perda do Paraíso, em A Gênese, cap. XI - Gênese espiritual, itens 43 a 49.
16 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. III - Há muitas moradas na casa de meu Pai - Instruções dos Espíritos -
Mundos de expiação e de provas, itens 14 e 15.
17 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI - O Cristo consolador - Instruções dos Espíritos - Advento do Espírito de Verdade, item 5.